segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Homilia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Paróquias de Luso e Pampilhosa)

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
1 DE JANEIRO DE 2012

Introdução
Este primeiro dia do ano, celebração da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, que encerra a oitava de Natal, é marcado por múltiplos elementos que enriquecem a nossa reflexão e celebração. Sendo o dia dedicado a Maria, permite-nos reconhecer a grandeza da sua maternidade – Daquela que tudo meditava em seu coração (cf. Lc. 2, 19) -, colocando-nos, igualmente, ao iniciar-se um novo ciclo anual, sob a sua protecção maternal; enquanto, por outro lado, ainda, nos apresenta o seu modelo de fidelidade à missão que Deus lhe confia, ao constitui-La Mãe do Seu Filho feito carne no meio de nós. Maria, que nos dá Cristo, pela Sua intercessão, favorece o nosso contacto com o mesmo Cristo (cf. LG. 60), a quem agora nos conduz, na ordem da graça.
Mas este dia - primeiro do ano - é também dedicado à paz, segundo a vontade do Papa Paulo VI, que, em 1968, instituiu o Dia Mundial da Paz, «como augúrio de um novo ano e de uma nova era de paz». Na celebração do seu quadragésimo quinto dia, o Papa Bento XVI propõe-nos, como mensagem, o tema: Educar os Jovens para a Justiça e a Paz; reflexão que merece a nossa atenção cuidada e disponível, para que, celebrando Cristo «Príncipe da Paz», renovemos os nossos laços de autêntica comunhão fraterna, olhando especialmente, neste ano, para a formação das novas gerações.
Precisamente por estarmos situados no primeiro dia do ano, a Igreja, na senda dos sacerdotes da Antiga Aliança, convida-nos ainda a invocar a bênção de Deus sobre o Seu povo, agora constituído como novo Israel que vive «aquela aliança nova e perfeita que haveria de selar-se em Cristo, e da revelação mais plena que o próprio Verbo de Deus, feito carne, viria comunicar» (LG. 9).
O sentido profundo da bênção e a mensagem para o Dia Mundial da Paz – da paz que não é apenas «ausência de guerra», mas que pressupõe uma verdadeira disposição interior para viver a dignidade da pessoa humana, a livre comunicação entre pessoas e a salvaguarda dos seus bens (cf. CIC. 2304; MDMP. 5) – merecerão a nossa breve atenção nas linhas que a seguir se propõem.
1. Abênção na Sagrada Escritura
De entre as múltiplas expressões de bênção, que encontramos na Sagrada Escritura, sobressai para nós, hoje, a do Livro dos Números (1ª Leitura) recitada pelos sacerdotes sobre todo o Povo de Israel: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilharsobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz» (Num. 6, 24 – 26). Esta bênção, cujo texto se constituiu como fórmula oficial para abençoar o povo, em qualquer ocasião em que a assembleia do Israel antigo se reunia, era proclamada pelos sacerdotes, ainda que, na sua forma originária, fosse proclamada pelo rei, a quem competia exercer funções sacerdotais e que abençoava em nome de Deus. Na verdade, é sempre Deus quem abençoa o Seu povo, particularmente quando este se reúne para um encontro consigo. Sendo uma assembleia litúrgica, Deus é colocado nominalmente no meio do Seu povo, a quem dispensa as Suas graças. É o próprio nome de Deus, proclamado sobre o povo, que se torna a fonte de todas as bênçãos e não qualquer outra consideração de carácter ritual ou mágico, pois Deus é que é a fonte de todos os bens. Estar na presença de Deus é fonte de bênção, enquanto a Sua ausência é fonte de privação desse dom.
Ora, para nós cristãos – que temos a graça de nos unir a Cristo intimamente, pois pelo Baptismo estamos configurados com Ele, formando o seu corpo místico (LG. 7) - esta bênção adquire um sentido ainda mais profundo: a verdadeira bênção é a participação da própria vida de Deus, que Ele, na Sua bondade, nos comunica no Seu Filho feito carne no meio de nós. Ou seja, a nossa verdadeira bênção é Cristo, garantia da plenitude da vida, pois n’Ele o Pai nos predestinou «para
sermos Seus filhos adoptivos, conforme o beneplácito da Sua vontade» (cf. Ef. 1, 5). Na sequência do Livro dos Números, a nossa protecção torna-se o próprio Cristo, cuja face nos é favorável e que se constitui para nós a fonte de toda a paz. Por isso o papa interpela a todos, e especialmente aos jovens, a compreender que «não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno» (MDMP. 6). Esta verdade e esta vida contemplamo-la todos nós em Cristo, «o caminho, a verdade e a vida» (Jo. 14, 6), Aquele – o único – por Quem chegaremos ao Pai (cf. Jo. 14, 6).

2. O tempo presente
No tempo presente, muitas são as propostas de realização e felicidade que nos chegam de diversos quadrantes. Mas muito poucas comportam consistência e essencialmente nos conduzem à plenitude da vida que buscamos. Os jovens, como todos nós, imersos nesta sociedade que cultiva o relativismo, «nada reconhecendo como definitivo», mas deixando somente como «última medida o próprio eu com os seus desejos», o que nos fecha em nós próprios, separando-nos «uns dos outros» (cf. MDMP. 3), são também as maiores vítimas desta sociedade que lhes nega – como bem refere o papa – «o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia, contribuindo para a construção de uma sociedade de rosto mais humano e solidário» (MDMP. 1); o que, não raro, é fonte de desânimo ou mesmo de contestação – seja ela activa ou silenciosa.
Na verdade, vivemos um conjunto de «falências» na cultura moderna, que provêem já de um passado longínquo, cujas raízes se encontram no iluminismo do séc. XVIII. O ideal do homem sem Deus – que se afirmou em muitas ideologias do século XX; o ideal do sucesso económico e material sem fim, fruto de uma sociedade tecnocrata e consumista; e mesmo o ideal da contínua perfectibilidade do homem, cujas raízes provêem desses tempos mais longínquos da história; manifestam-se hoje como ideais falidos, sem capacidade de responder aos desafios concretos com que cada um se confronta, no concreto das suas vidas. Necessitamos, por isso, de regressar à verdade mais essencial sobre a nossa identidade humana: aquela consciência da «dignidade da pessoa», que leva cada um – na expressão do Vaticano II – a exigir «poder agir de acordo com os seus critérios no exercício de uma liberdade responsável, guiados apenas pela consciência do dever e não por qualquer coacção» (DH. 1), que se opõe a uma concepção de liberdade marcada pelo relativismo do eu absoluto, julgando-se independente de todos, podendo «fazer tudo o que lhe apetece», acabando «por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade» (MDMP. 3). É que, de facto, sob a aparência de uma liberdade sem fim, o relativismo hodierno transformou-se na maior coação mental, social e cultural, que nos chega de formas diversas, e que esvazia o sentido profundo da vida humana.
Ora, os jovens de hoje – adultos de amanhã – necessitam de ser formados na verdade e na justiça, como refere o papa, de onde sobressai, como «primeira educação», «reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem a sua vida conforme a esta sublime dignidade» (MDMP. 3). Este é o desafio lançado a todos os que têm a tarefa de educar os mais jovens, significando educare «conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa», tarefa esta confiada à família, às instituições educativas, aos responsáveis políticos, ou ainda aos meios de comunicação social, cuja acção é tão importante, pois que é estreita a relação entre «comunicação e educação» (cf. MDMP. 2).

3. A bênção que nos é oferecida
A maior bênção que nos é oferecida é a condição de filhos de Deus e irmãos uns dos outros, o que nos permite tomar consciência de nós mesmos, mas nunca de forma isolada. É o próprio Jesus, feito carne, quem nos revela, na Sua humanidade, o valor da vida humana e nos ensina a reconhecer o outro como nosso verdadeiro irmão, pois que Ele foi o primeiro a fazer-se próximo de cada um de nós. Assim, descobrir em Deus, feito carne, a liberdade autêntica (cf. MDMP. 3) é primeira condição para alcançar a verdadeira bênção - enquanto benefício ou graça mais sublime - de que não pode separar-se o serviço aos outros, pois que justiça e caridade, na concepção cristã, resultam desta «mesma identidade profunda do ser humano» (MDMP. 4). Como nos recorda ainda o papa «a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor» (MDMP. 4). A nossa felicidade, ao longo de um novo ano, resulta essencialmente desta consciência profunda de nós – que já não somos escravos, mas filhos, como refere a segunda leitura de hoje (cf. Gál. 4, 7) - e do serviço que prestamos aos demais. Isto é, depende do modo como acolhemos os dons de Deus e os transformamos em verdadeiros dons humanos, colocando-os ao nosso serviço, em verdadeira atitude de acção de graças, mas igualmente ao serviço uns dos outros.

Conclusão

No início de um novo ano, que o Senhor nos conceda a graça de reconhecermos a bênção que nos foi dada, pois que o Pai «nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus» (Ef. 1, 3), predestinando-nos «para sermos seus filhos adoptivos por Jesus Cristo» (Ef. 1, 5) - o fundamento da nossa suprema glória; e nos faça reconhecer na caridade o «vínculo da perfeição» (Col. 3, 14), sabendo que, por ela, «passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos» (1Jo. 3, 14).
Que a Virgem Mãe, para quem olhamos e a quem nos confiamos neste primeiro dia do ano, vele por todos nós e nos conceda, pela graça da Sua intercessão, que o olhar de Deus repouse sobre nós, no seja favorável e nos conceda a paz. A ela, Mãe de todos os cristãos, recomendamos especialmente os nossos jovens, para que estes encontrem em Deus a fonte da vida; e numa verdadeira cultura da justiça e da paz, sejam os construtores de um mundo com um «rosto mais fraterno e humano», verdadeiramente digno da nossa condição de homens e de filhos de Deus.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Homilia da Missa do Dia de Natal (Luso e Pampilhosa)

MISSA DIA DE NATAL
25.12.2011

«N’ Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens» (Jo. 1, 4)

Introdução

O mistério de Natal, na multiplicidade das suas celebrações – especialmente a Missa da noite e a Missa do dia – permite-nos contemplar a dupla dimensão do mistério da encarnação do Verbo de Deus – a Sua humanidade e a Sua divindade, sem que se distinga o «acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus» (cf. CIC. 464). Como bem diz o Catecismo da Igreja Católica, «Ele fez-se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem» (CIC. 464); ou seja, «É verdadeiramente o Filho de Deus, feito homem, nosso irmão, e isso sem deixar de ser Deus, nosso Senhor» (CIC. 469). Mas, na pedagogia litúrgica, se ontem o nosso olhar se detinha na humanidade do Verbo da vida, hoje permite-nos contemplar, de modo especial, o mistério divino d’ Aquele que se fez carne no meio de nós – aquele que sendo da natureza do Pai e que com Ele existia, «habitou no meio de nós» (cf. Jo. 1,14). São João e a Carta aos Hebreus – a segunda leitura de hoje – deixam-nos entrever este mistério da preexistência do Verbo da vida, que, sendo um com o Pai, esteve na origem de todas as coisas, pois por Ele tudo foi feito e «sem Ele nada foi feito» (cf. Evangelho).
Por isso Ele é a vida, pois que é um com o Pai e a manifestação plena do Seu amor pelos homens. A vida que Jesus nos comunica é essa mesma vida do Pai, de que Ele participa na condição de Filho. Ora, ao fazer-se carne - o mesmo é dizer, ao fazer-se homem – esta vida revelada torna-se a luz dos homens. Isto é, mediante a Sua Encarnação, Jesus Cristo manifesta-nos o sentido pleno da nossa existência e rasga horizontes de plenitude que nada, nem ninguém mais, nos podem oferecer, porque nos oferece a vida que provém de Deus que é Pai, de que Ele é participante e que agora plenamente se nos manifesta. Neste sentido, N’Ele está a plenitude da vida; realidade que se torna a luz verdadeira para todos os homens. Mas o acolhimento da vida doada em Jesus Cristo pressupõe, da nossa parte, uma adesão livre e consciente – um verdadeiro acto de fé – que, na nossa liberdade, pode ser também de recusa. E é para aí que nos remete a continuação do Evangelho de hoje. Centremo-nos em três das afirmações que são bem expressivas do convite que nos é formulado pelo evangelista João.

1. «Os seus não o receberam» (Jo. 1, 11)

Se esta referência de João nos permite olhar para a Igreja nascente e para a recusa dos
judeus em acolher o Verbo de Deus, não deixa de nos questionar sobre o presente da nossa história e sobre a recusa de tantos irmãos nossos em acolher o Verbo da Vida. De igual modo, permite-nos compreender que também nós recusamos o Verbo de Deus quando d’Ele nos afastamos, seguindo critérios de vivência pessoal que se distanciam da Sua Pessoa e da Sua palavra. Com a expressão «agnosticismo», hoje tão presente na linguagem de alguns, particularmente de jovens e de jovens adultos, indica-se a falta de conhecimento ou, mais propriamente, «uma impossibilidade de conhecer» o mistério de Deus. Ora, com a Encarnação do Verbo, é Deus quem se dá a conhecer; é Ele mesmo quem se revela na nossa história e se faz próximo de cada um de nós. Assim, conhecê-Lo não é já uma impossibilidade, mas um dom que
a todos é oferecido. Basta, para tanto, que nos abramos, na simplicidade do coração, à revelação que continua mediante o Espírito e a acção confiada à missão própria da Sua Igreja. Afinal, o Deus Menino feito carne, no meio de nós, é o Senhor Vivo e Ressuscitado, que a todos ilumina e conduz à plenitude da vida. Mas, nas nossas comunidades cristãs, a predominância pode ser a de um denominado «agnosticismo prático», ou seja, tendo tido a possibilidade de conhecer o mistério de Deus revelado, muitos optam por viver à margem de Deus e da Sua palavra. De algum modo, uma existência humana vivida como se Deus não fosse importante, particularmente
numa sociedade de onde Ele parece estar cada vez mais ausente. O que compreende um drama humano, pois a vida deixa de ter sentido, sendo vivida – como refere o Cardeal Paul Poupard – «sem transcendência», de «uma maneira efémera», algo sem continuidade, feita da simples soma de alguns momentos, o que gera, consequentemente, a ausência de um verdadeiro futuro.
Este modo de viver, sem referência a Deus e à Sua palavra, revelada no Deus Menino, tem ainda como consequência uma verdadeira falta de humanidade, daquela humanidade que Ele, na sua Encarnação, nos revelou. Daí o drama profundo de vidas dissipadas pelos mais diversos
vícios humanos, ou manipuladas por interesses imediatos, tantas vezes espelhados nos grandes dramas pessoais e sociais com que nos confrontamos em cada dia, nomeadamente através da multiplicidade de meios de comunicação social.
Mas também nós, cristãos, nos poderemos manter na recusa em recebê-Lo se os nossos critérios pessoais assentarem na vivência egoísta da vida, no conflito, nalguma forma de exploração dos outros – pela falta de verdade ou de honestidade – ou simplesmente pela incapacidade de acolher mais profundamente a luz que o Verbo eterno nos revela na sua perene misericórdia.
Na verdade, contudo, a todos Jesus se oferece como a Palavra definitiva – o Verbo – do Pai, expressão plena do Seu amor para connosco. Uma palavra próxima, que partilha a nossa história e lhe rasga um sentido radicalmente novo, dizendo-nos quem Deus é para nós e quem nós somos para Ele.

2. «Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo. 1, 12)

Receber Jesus e aceitá-Lo pressupõe um verdadeiro acto de fé; isto é, o assentimento livre a Deus revelador, que, na riqueza do Seu amor, «fala aos homens como amigos e convive com eles, para os admitir à comunhão com Ele» (cf. CIC. 142). A obediência da fé - «submissão livre à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria verdade» (CIC. 144) – é condição para partilharmos a vida de filhos no Filho; herdeiros, com Ele, da plenitude da vida que Ele nos oferece pela Sua Encarnação, Morte e Ressurreição. Na verdade, Jesus fez-se carne, no meio de nós, para «nos tornar participantes da Sua natureza divina» (CIC. 460). Assim
compreendemos a expressão de João: «deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo. 1, 12). Esta realidade, que é sempre primeiramente iniciativa de Deus (cf. CIC. 51 – 52; 458), que deseja «que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm. 2, 4), pressupõe então esta livre adesão do homem a Deus e assentimento à verdade por Ele revelada (cf.CIC. 150), cuja expressão plena se encontra na revelação do Filho, feito homem no meio de nós (cf. 2ª Leitura), «a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai» (CIC. 65). E a consequência, como se referiu já, é a nossa própria filiação divina. A graça de nos tornarmos deuses, como referem os padres da Igreja, mormente Santo Atanásio e São Tomás que, respectivamente, o afirmam: «Porque o filho de Deus fez-se homem, para nos fazer deuses» e ainda «o Filho
Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da Sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses» (CIC. 460). Esta é, com efeito, a graça maior que nos é concedida pela Encarnação de Cristo – a filiação divina.

3. «Foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça» (Jo. 1, 16)

Com esta expressão, por seu turno, João diz-nos claramente que a Antiga Aliança foi
suplantada pela Nova Aliança realizada em Jesus Cristo. É, uma vez mais, a afirmação de que pela participação da Sua vida nos foi concedido o dom pleno da condição de filhos.
Mas que outras graças recebemos nós pela Encarnação de Cristo? Deixemos que o Catecismo da Igreja Católica nos responda, ao propor-nos a meditação do que recitamos no Credo, quando afirmamos «por nós homens, e para nossa salvação, desceu dos céus, e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem» (cf. CIC. 456).
Antes de mais, o Verbo fez-se carne «para que assim conhecêssemos o amor de Deus: ‘Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o Seu Filho Unigénito, para que vivamos porEle’» (CIC. 458).
Logo depois, o Verbo fez-se carne «para ser o nosso modelo de santidade» (CIC. 459), segundo aquela palavra do próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim» (Jo. 14, 6); ou ainda: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo. 15, 12),
significando que «este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos» (CIC. 459) no seguimento de Jesus Cristo.
E, finalmente, para «nos tornar participantes da natureza divina» (CIC. 460) como anteriormente referimos, a que podemos acrescentar ainda o comentário de Santo Ireneu de Lião: «Pois por essa razão o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus se fez Filho do Homem: foi
para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina, se tornasse filho de Deus» (CIC. 460).
Conclusão

A terminar, julgo que este é o momento oportuno – momento de graça – para compreendermos
profundamente o mistério do Verbo de Deus feito carne e de o testemunharmos a todos os nossos irmãos, com toda a força da nossa alma. Compreendermos, igualmente, a graça que nos foi dada mediante a plenitude do amor de Deus, realizada a nosso favor, fazendo de nós filhos no Seu Filho único, mediante a Sua encarnação.
Um forte convite, que nos responsabiliza, ainda, a vivermos como filhos da luz e herdeiros da vida, centrados em Cristo, nossa esperança, imitando-O na graça filial, na vivência da santidade e num permanente louvor ao Deus que é Pai e que no Seu Filho, nos encheu de todas «as bênçãos espirituais, nos céus» (Ef. 1, 3) e por Ele «nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos, conforme o beneplácito da Sua vontade» (Ef. 1, 5).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal de Sr. D. Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra


MENSAGEM DE NATAL

1. Natal de fé
A razão de ser da festa do Natal encontra-se na Pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus, incarnado no seio de Maria e nascido em Belém.
Enquanto cristãos, aprofundamos a consciência da fé que nos anima e procuramos dar sinais ao mundo de que ela nos fortalece em todos os momentos da vida, de sofrimento ou de consolação.
O presépio que fazemos nas nossas casas, nas igrejas e nos lugares públicos, não é somente o resultado de uma tradição cultural ou religiosa mas, na sua singeleza, é um sinal da fé na vinda ao mundo do Salvador.
Mais importante do que as tradições ligadas a esta quadra, e elas são muito ricas e expressivas entre nós, os cristãos hão-de privilegiar as atitudes de fé, que transformam a vida pessoal, familiar e social.

2. Natal de esperança
O natal de Jesus Cristo e o nosso natal é fonte da esperança mais autêntica, que não se baseia em realidades efémeras, mas em Deus, princípio de todas as coisas, e no Homem, criado para um futuro novo de glória.
As situações difíceis abundam e muitos homens e mulheres, nossos irmãos, são vítimas da ausência de razões para a esperança. A falta de condições materiais de vida afectam muitas famílias, que não podem ver um futuro sorridente e promissor para as crianças e os jovens. Os dramas humanos e espirituais sucedem-se e deixam prostradas muitas pessoas, que não têm as necessárias forças interiores para se levantarem e reanimarem.
A todos estes que, afinal, somos de algum modo, todos nós, o Natal convida a levantar a cabeça, e a contemplar o Emanuel, o Deus connosco, fonte de toda a esperança.

3. Natal de caridade
O nascimento de Jesus Cristo, juntamente com a Sua paixão e morte na cruz, constituem a grande revelação do amor de Deus para com a Humanidade. No modo de amar de Deus ganha nova luz todo o amor humano, a generosidade, a partilha. Em Jesus Cristo aprendemos os contornos da fraternidade mais radical, de quem dá o que tem e se dá a Si mesmo em favor dos irmãos.
Nos tempos difíceis em que vivemos, tem novas expressões a caridade de que o Natal é sempre mensageiro. A pobreza de muitas pessoas exige soluções que passam pelas mudanças estruturais da sociedade e pelo auxílio caritativo.
Que neste Natal, aprofundemos o sentido humano e cristão da fraternidade; procuremos mudar a nossa mentalidade egoísta; ensinemos às crianças e jovens a alegria de partilhar; abramo-nos a muitas iniciativas e campanhas de auxílio aos pobres.
Se nunca é lícito esbanjar, em tempos de fome e de pobreza à nossa porta, torna-se um ato ainda mais desumano. Haverá, por isso, um lugar privilegiado para a caridade pessoal e material, fruto de uma maior sobriedade nas festividades natalícias.
Um santo e feliz Natal!

Coimbra, 12 de Dezembro de 2011
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

NOTA PASTORAL SOBRE A SEMANA DOS SEMINÁRIOS

A Semana dos Seminários, de 6 a 13 de Novembro, traz à vida da Igreja Diocesana um dos mais importantes temas de reflexão, acção pastoral e oração: o sacerdócio ministerial. Jesus Cristo quis deixar-nos o grande dom dos sacerdotes que, agindo em profunda união com a Sua Pessoa, são intermediários insubstituíveis da acção santificadora da Igreja.
Os presbíteros em comunhão com o bispo recebem a missão inestimável de conduzir o Povo de Deus às fontes da salvação, por meio do anúncio da Palavra, da celebração dos sacramentos e enquanto vínculos de unidade das comunidades cristãs.
Os diáconos, disponíveis para o serviço da evangelização, da liturgia e da caridade, tornam-se cada vez mais sujeitos de uma vocação imprescindível à vida da Igreja, que, com eles, exprime melhor a riqueza do dom de Deus em favor do Seu Povo.
Nesta Semana dos Seminários, todos nós, diocesanos de Coimbra agradecemos ao Senhor da Messe a vida e acção de todos sacerdotes; agradecemos a Deus a possibilidade de celebrar a Eucaristia, fonte e cume de toda a vida da Igreja; agradecemos os seminaristas que se preparam para a recepção das Ordens Sacras e todos os que se dedicam ao trabalho de promoção
vocacional.
A causa das vocações sacerdotais é prioritária na Igreja Diocesana, uma vez que algumas comunidades paroquiais se encontram privadas da celebração regular da Eucaristia dominical e, por isso, impossibilitadas de aceder ao sacramento da comunhão com Cristo. Por isso, esta causa há-de estar presente como horizonte em todas as acções de ordem catequética, espiritual,
litúrgica e pastoral de todas as comunidades cristãs.
Peço encarecidamente aos presbíteros, diáconos, catequistas, animadores das comunidades, famílias e a todo o Povo de Deus, que se empenhem na oração e na acção pelo seminário, para que o Senhor da Messe encontre corações disponíveis para abraçar a vocação sacerdotal.
Bom seria que, de um modo mais intenso na Semana dos Seminários e regularmente ao longo de todo o ano, houvesse tempos de oração pelas vocações sacerdotais nas igrejas e capelas da Diocese de Coimbra: adoração semanal do Santíssimo Sacramento, vigílias de oração periodicamente, a oração diária do terço em comunidade e em família.
A Nossa Senhora, Mãe dos Sacerdotes, confio o cuidado pelas vocações sacerdotais na nossa diocese de Coimbra.

Coimbra,
1 de Novembro de 2011, Solenidade de Todos os Santos

Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PROGRAMA PASTORAL 2011 / 2012

Paróquias de
Luso e Pampilhosa

PROGRAMA PASTORAL
2011 /2012

«A PALAVRA DE DEUS É VIVA E EFICAZ» (Heb. 4,12)

INTRODUÇÃO

O presente ano pastoral de 2011 – 2012 terá como tema aglutinador a expressão, da Carta aos Hebreus, «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4, 12). Pretende-se continuar o aprofundamento bíblico, na sequência do ano pastoral anterior. Esperando, agora, que a proposta pastoral tenha uma aceitação muito mais decidida, por parte das comunidades e de cada cristão, do que aquela que pudemos registar no ano pastoral anterior.

Sendo este o elemento central da acção pastoral – o aprofundamento Bíblico – não esgota, como é óbvio, toda a acção da Igreja, a nível das comunidades, que terá de continuar a centrar-se nas quatro dimensões que lhe são próprias: a catequese; a liturgia; o serviço da caridade; e a dinamização das estruturas de comunhão. Contudo, todos estes aspectos estruturantes da vida comunitária terão uma referência directa à proposta aglutinadora, a partir da qual se compreendem e se podem dinamizar.
De igual modo, na hora actual da Igreja Universal e da Igreja Diocesana, urge responder aos apelos da «Nova Evangelização», enquanto renovação da vida interior das comunidades paroquiais e abertura a um testemunho coerente no mundo, vivenciando o mandato missionário que Cristo confia à sua Igreja: «Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos» (Mt. 28, 19).
Servem de fundamento a esta planificação os documentos do Vaticano II, com destaque para a Dei Verbum; a Exortação Apostólica Pós – Sinodal A Palavra do Senhor, do Papa Bento XVI; o Catecismo da Igreja Católica; os Lineamenta do Sínodo dos Bispo de 2012; a comunicação do nosso bispo, nas Jornadas Pastorais do Clero, Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral; o Décimo Segundo Sínodo Diocesano de Coimbra, de 1999; o livro Testemunha do Evangelho, do bispo espanhol D. Fernando Sebastián Aguilar[1]; e, de Enzo Bianchi, a Paróquia[2].

1. O tema do ano: «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4,12).

1.1. Conteúdo

Com a expressão da Carta aos Hebreus «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4, 12), pretendemos sublinhar os seguintes aspectos fundamentais, para a vida das comunidades cristãs:
a) A Palavra de Deus é o próprio Cristo feito carne no meio de nós, em cuja incarnação o Verbo eterno «transmite as palavras de Deus e consuma a obra de salvação que o Pai lhe confiou» (DV. 4). A palavra do Ressuscitado permanece na Igreja, pela força do Seu Espírito, convocando-nos a uma escuta profunda e consequente, na conformação com a sua pessoa e com a actualidade dessa mesma palavra.

b) A eficácia da palavra advém precisamente da força do Espírito que a torna eficaz na Igreja, seja na liturgia, na oração pessoal ou noutros momentos de meditação, permitindo que a sua escuta se transforme num verdadeiro «diálogo entre Deus e o homem» (DV. 25), mediante o qual nos tornamos capazes de falar com Ele e de O escutar com toda a profundidade da nossa alma (cf. DV. 25).

c) A escuta desta palavra deve conduzir-nos à verdade do testemunho cristão, para que todos nós, na diversidade de géneros de vida, de profissões e de carismas, guiados pelo mesmo Espírito de Deus e obedecendo à voz do Pai, sigamos a Cristo pobre, humilde e carregado com a cruz, para merecermos participar na Sua glória (cf. LG. 41). Também neste sentido a palavra é eficaz, permitindo a construção do Reino de Deus no mundo ao qual somos enviados.

Ora, para que esta palavra seja eficaz na vida de cada cristão, é necessário escutá-la e conhecê-la. Neste sentido, exorta o Concílio Vaticano II «a que todos os fiéis aprendam a maravilha que é o conhecimento de Jesus Cristo, com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque ‘desconhecer as escrituras é desconhecer Cristo’» (DV. 25). Para logo continuar: «Debrucem-se, pois, amorosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por cursos apropriados, quer ainda através de outros meios que em nossos dias, com a aprovação e estímulo dos Pastores da Igreja, se vão difundindo tão louvavelmente por toda a parte» (DV. 25). E, na perspectiva da elaboração futura de um programa pastoral para a Diocese, é ainda o nosso Bispo quem nos convida a trilhar este mesmo caminho, ao referir: «É necessário implementar um sério conhecimento da Sagrada Escritura, como Palavra de Deus que, juntamente com a Eucaristia, é o alimento de Deus para a sua Igreja. Não se pode fazer a nova evangelização sem propor aos cristãos a leitura, meditação e oração a partir da Palavra de Deus, tanto individualmente, como em família ou na comunidade cristã»[3]. Para logo continuar: «A leitura litúrgica, a celebração da Liturgia das Horas e a lectio divina, acompanhadas pelo estudo bíblico, são meios indispensáveis para o aprofundamento da fé»[4]. Concluindo, então: «temos de gastar muito tempo e energias a difundir entre os cristãos a prática da leitura orante da Bíblia»[5]. E é o próprio Concílio que, na alusão ao tema escolhido para este ano, nos ensina ainda: «É tão grande a força e a eficácia da palavra de Deus, que se torna o sustentáculo vigoroso da palavra da Igreja, fortaleza da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Daí que se deva aplicar, por excelência, à Sagrada Escritura as palavras: a palavra de Deus é viva e eficaz (Heb. 4, 12), e tem poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados (Act. 20, 32)» (DV. 21).
Assim, o aprofundamento da Palavra de Deus, através da oração e do seu estudo, em ordem ao conhecimento das fontes da fé, ocupará um lugar privilegiado no ano pastoral que agora se inicia.

1.2. Objectivos

- Aprofundar o conhecimento Bíblico.
- Incrementar a vida cristã a partir da Lectio Divina (leitura orante da Bíblia).
- Valorizar o anúncio da Palavra em todos os âmbitos da vida comunitária.

1.3. Estratégias e recursos

- Formação de grupos de reflexão bíblica, na perspectiva da lectio divina – leitura orante da Bíblia[6].
- Revitalização dos grupos bíblicos, no Luso. Possibilidade de oração em pequenos grupos a partir da bíblia.
- Utilização dos livros: LA CASA DE LA BÍBLIA - O Tesouro do Escriba. Guia para uma leitura comunitária do Evangelho de São Mateus. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2007; Idem – o Verdadeiro Rosto de Jesus. Para uma leitura comunitária do Evangelho de São Marcos. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996; Idem, Curso de Iniciação á Leitura da Bíblia. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996. (Tradução do Pe. Idalino Simões).
- Uma especial atenção à preparação do anúncio da Palavra em todas as celebrações litúrgicas – Eucaristias; demais Sacramentos; Celebrações da Palavra.
- Especial atenção aos momentos de oração comum, antes ou no fim de cada reunião, com recurso contínuo à Palavra de Deus.

2. Nova Evangelização: «Novos cristãos, nova Igreja, nova cultura, nova sociedade»[7].

2.1. Conteúdo

A «Nova Evangelização» define-se, segundo a intuição do Papa João Paulo II, como «um meio de comunicação de forças com vista a um novo ardor missionário e evangelizador»[8]. É com este intuito que o Papa a refere, falando aos bispos da América Latina: «A comemoração do meio milénio de evangelização alcançará o seu significado pleno se for um compromisso vosso como bispos, juntamente com o vosso Presbitério e com os vossos fiéis; compromisso não certamente de reevangelização, mas de uma nova evangelização. Nova em seu ardor, em seus métodos, em suas expressões. Não se trata de fazer de novo qualquer coisa que foi mal feita ou que não funcionou, como se a nova acção fosse um implícito juízo sobre o falhanço da primeira. A nova evangelização não é uma duplicação da primeira, não é uma simples repetição, mas é a coragem de ousar novos caminhos, para atender às mudanças de condições dentro das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho»[9]. Continuando, refere o papa João Paulo II: «a nova evangelização é, antes de mais, uma acção espiritual; a capacidade de assumir, no presente, a coragem e a força dos primeiros cristãos, dos primeiros missionários. É, portanto, uma acção que requer, em primeiro lugar, um processo de discernimento acerca do estado de saúde do cristianismo, o reconhecimento das medidas tomadas e das dificuldades encontradas (…) [para] entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário»[10].
Já D. Fernando Aguilar, na sequência desta proposta do sumo pontífice, a define como «novos cristãos, nova Igreja, nova cultura, nova sociedade. Um programa para muitos anos, para várias gerações. Mas competindo-nos a nós começar, pôr o rumo certo e assentar os fundamentos»[11].
Neste mesmo âmbito, o nosso bispo, recentemente, resumia também assim a sua vontade, no que se refere à acção pastoral na nossa diocese, para os próximos anos: «Gostaria que os próximos anos fossem essencialmente voltados para esta pastoral da fé, para a nova evangelização das comunidades, para o conhecimento de Jesus Cristo, para a adesão íntima e profunda a Ele»[12].
Ora, é este caminho, fundado na escuta profunda da Palavra de Deus que havemos de trilhar, em comunidades paroquias, obedientes à voz do Espírito, que nos fala mediante os pastores da Igreja que nos confirmam na fé. Esta «Nova Evangelização» compreenderá, portanto, simultaneamente a renovação pessoal de cada um e das comunidades, no encontro pessoal com Cristo, e o testemunho vivo do seu amor, de modo a que muitos outros se possam aproximar d’Ele, o único que tem palavras de «vida eterna» (Cf. Jo. 6, 68).

2.2. Objectivos

- Criar estruturas que permitam o anúncio do Evangelho noutros espaços que não apenas os habituais, no âmbito das paróquias.
- Sensibilizar as comunidades para a necessidade de assumir com um novo fôlego a missão primeira da Igreja: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc.16, 15).
- Cruzar o aprofundamento Bíblico com a urgência da missão eclesial.
- Incentivar os fiéis leigos a serem presença viva e actuante como testemunhas dos valores do Reino de Deus nas estruturas seculares.

2.3. Estratégias e recursos

- Pela sua complexidade, o novo dinamismo evangelizador necessita de estruturas provadas na sua eficácia. Assim, contactaremos com os Cursos Alfa, aprofundando a sua pedagogia, em ordem à acção missionária no contexto das comunidades cristãs.
- Envolver as comunidades cristãs no dinamismo evangelizador, integrando, se possível, células de evangelização, na linha do recurso acima indicado.
- Urge promover uma séria reflexão comunitária sobre a Gaudium et Spes do Vaticano II. Programaremos, oportunamente, uma reflexão / conferência sobre esta Constituição Conciliar. Esta iniciativa insere-se, ainda, nas celebrações dos cinquenta anos do Vaticano II.
- Aproveitando a experiência de formação Bíblica, consciencializar os fiéis que o compromisso cristão, que brota da relação com Deus, pressupõe sempre a missão.
- Por ocasião da preparação do Sínodo dos Bispos sobre «Nova Evangelização», propor às comunidades um espaço de reflexão sobre os grandes desafios que hoje se colocam à Igreja, presentes nos Lineamenta do Sínodo. Esta reflexão pode ser realizada no âmbito de uma conferência, com um especialista nesta área de acção pastoral.

[1] Cf. AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2, 2005. (Tradução de Maria Armanda Saint- Maurice).
[2] Cf. BINACHI, Enzo e CORTI, Renato – A Paróquia. Prior Velho: Paulinas, 2006.
[3] D. Virgílio Antunes – Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral. Policopiado. Coimbra, 29 de Setembro de 2011, p. 4. (Comunicação do Senhor Bispo no encerramento das Jornadas Pastorais do Clero, realizadas na Praia de Mira, a 28 e 29 de Outubro de 2011).
[4] Ibidem, p. 4.
[5] Ibidem, p. 4.
[6] Para ver o esquema da Lectio Divina consulte-se o livro: LA CASA DE LA BÍBLIA – Curso de Iniciação à Leitura da Bíblia. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996, p. 29.
[7] AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho, op. cit., p. 52
[8] Lineamenta do Sínodo dos Bispos de 2012, nº 5.
[9] Ibidem, nº 5.
[10] Ibidem, nº 5.
[11] AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho, op. cit. p. 52. Cf. Ibidem, p. 98.
[12] ANTUNES, D. Virgílio do Nascimento – Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral. Coimbra, 29 de Setembro de 2011, p. 4.
NOTA: Publica-se apenas a parte inicial (pontos 1 e 2); pela sua extensão ficam por publicar ainda o ponto 3 e 4 ( este último referente ao acompanhamento e avaliação da execução do Programa Pastoral. Algumas dificuldades com o blog não permitem a indicação devida das referências bibliográficas, mas que estão completas).

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Linhas de orientação para a vida da Diocese

Aqui estão as grandes linhas de orientação para a vida da Diocese, no futuro próximo, apresentadas pelo nosso Bispo, Senhor D. Virgílio Antunes:

POSSÍVEIS CAMINHOS PARA UMA NOVA PASTORAL


1. INTRODUÇÃO

Neste meu primeiro encontro convosco, o clero da diocese de Coimbra, desejo saudar-vos com afecto. Agradeço as manifestações de alegria e estima que tenho recebido da vossa parte e da parte de muitos religiosos e leigos de toda a Diocese. Peço a Deus que me ajude a uma configuração cada vez maior com Cristo, na missão de Pastor da Sua Igreja, que é esta diocese de Coimbra. Também vós, com certeza, lho pedis juntamente com as comunidades paroquiais a que presidis.

Estamos a iniciar um novo ano pastoral, que coincide com o início do ministério do novo bispo de Coimbra. Nestas circunstâncias há muitas ideias que andam no ar, muitas perspectivas que precisam de ser reflectidas e muitas opções que é urgente tomar. Peço-vos disponibilidade para juntos darmos lugar a essa reflexão e procurarmos colegialmente os melhores caminhos para a vida desta porção do Povo de Deus, entregue aos nossos cuidados pastorais. Estamos em tempos de muita exigência a todos os níveis e não podemos adiar os esforços de comunhão entre nós e com Cristo, a pedra angular que sustenta a Igreja. Queira Deus que a entrada do novo bispo possa ser um factor aglutinador de todas as forças humanas, bem conduzidas pela força do Espírito Santo de Deus, no sentido de perscrutarmos de forma inteligente e audaz os caminhos a percorrer.

A entrada do novo bispo coincidiu com a última fase da implementação do anterior Plano Diocesano de Pastoral para 2008-2011, intitulado “Ide e fazei discípulos”. Em tempo oportuno as várias instituições fizeram a avaliação do impacto que teve na vida das comunidades e da própria Diocese. Não temos preparado novo Plano Pastoral devido às circunstâncias de mudança que conhecemos e porque ele tem de surgir da reflexão e oração conjunta, por meio das quais procuraremos discernir as prioridades e definir alguns objectivos a curto prazo, que nos ocuparão nos próximos tempos.

Este ano pastoral de 2011-2012 sem um Plano Pastoral definido será de reflexão e poderá ter grande utilidade, se nos ajudar, com muita ponderação, a traçar algumas prioridades pastorais, objectivos e linhas de conduta. É um ano em que procurarei conhecer a realidade da Diocese e inserir-me nos seus dinamismos. No início do próximo ano esperamos ter um novo Plano Diocesano de Pastoral.

Juntamente com o Conselho Episcopal, delineámos o programa destas Jornadas de Pastoral, intituladas “Caminhos de revitalização das comunidades cristãs”. O objectivo fundamental, como vos disse na carta enviada, consistia em nos levar a revisitar os fundamentos escriturísticos e do magistério conciliar acerca da identidade cristã e eclesial que nos permitisse olhar para as comunidades cristãs que somos e abrir alguns caminhos para a sua revitalização. No fundo, pretendíamos recentrar-nos nas fontes da identidade da Igreja e de toda a sua acção, para a partir daí pensarmos o nosso modo concreto de ser Igreja nas circunstâncias actuais. Daí que tenhamos insistido na Palavra sempre nova da Escritura e no Magistério mais actual da Igreja, o do Concílio Vaticano II e do pós-concílio.

Nesta comunicação pressuponho aquilo que foi dito pelos competentes conferencistas que convidámos e procurarei situar-me num plano mais prático, numa tentativa de vos oferecer algumas reflexões e propor alguns desafios. Trata-se, como é evidente, de uma visão parcial e que enferma de um insuficiente conhecimento da globalidade da vida da diocese de Coimbra, tão vasta nas suas dimensões e tão complexa nos seus múltiplos detalhes.

2. O ESPÍRITO QUE NOS ANIMA

Na encruzilhada dos tempos em que nos encontramos, a Igreja vê desafios novos e grandes, que tem de estar à altura de enfrentar. A laicização crescente da sociedade, a perda do sentido de Deus, o materialismo prático, a crise de valores, o eclipse do transcendente, entre outros.

Depois de uma Igreja de cristandade, influente, capaz de marcar o ritmo da sociedade e da cultura a diferentes níveis, somos agora uma Igreja que perde nas estatísticas e caracterizada por uma enorme ausência de convicções em parte dos seus membros. Sentimo-nos Igreja em declínio, com todas as consequências que isso provoca a nível psicológico. Os leigos por um lado e os ministros ordenados por outro, estão marcados por um certo desencanto, quando não desânimo e tentação de desistir. Frequentemente se ouvem nas assembleias, encontros, instituições e serviços eclesiais, expressões significativas como: as pessoas não vêm; os jovens estão ausentes da Igreja; já experimentámos e não conseguimos nada... Será que vale a pena?

O pessimismo tornou-se um denominador comum, com muitas consequências negativas: o deixar correr as coisas sem grandes sobressaltos nem iniciativas; o assistencialismo religioso, próprio de quem tenta adiar uma falência que parece inevitável; a incapacidade de reagir com novas propostas. Ao nível das comunidades paroquiais vai-se notando uma cada vez maior desertificação das igrejas, a diminuição da prática dominical, da frequência da catequese infantil, do número dos que casam catolicamente, dos que são baptizados e confirmados, e o crescente aumento do número de pessoas que não se identificam com o pensar e sentir da Igreja, sobretudo com a sua doutrina moral.

Ao nível da Diocese parecem faltar linhas de orientação bem claras para todos, propostas de acção, uma organização bem definida, agentes qualificados e inclusivamente estruturas humanas e físicas.

Em consequência de um certo desgaste provocado por estas situações, pode faltar algum entusiasmo e alguma alegria na realização da missão eclesial. Pode acontecer que se enfrentem as dificuldades provenientes das circunstâncias actuais mais como um encargo pesado do que como uma oportunidade e um desafio.

A situação que vivemos encontra um paralelo muito claro com a que nos oferece o Evangelho Segundo S. João no capítulo VI, após o discurso do Pão do Céu. Depois de anunciar a Sua carne como verdadeira comida e o Seu sangue como verdadeira bebida, Jesus pressente à sua volta uma reacção negativa, em consequência da dureza daquelas palavras que preanunciam a Sua paixão. As multidões e os próprios Apóstolos são tomados pela tentação do desânimo: as primeiras começam um movimento de afastamento; os segundos ficam inactivos e tolhidos nos seus movimentos, desorientados. A situação provoca a pergunta incisiva de Jesus: “Também vós quereis ir embora?”. Simão Pedro responde: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus” (Jo 6, 67-68).

Estas palavras mostram-nos de forma eloquente que a Igreja está sujeita a passar por momentos difíceis e que a tentação de desistir é de todos os tempos. Quanto mais nos afastamos de Cristo e nos envolvemos com as estruturas humanas, mais facilmente perdemos o sentido da fé e cedemos face às adversidades. No mesmo discurso, Jesus refere-se à comunhão profunda com Ele como condição para permanecer firme na fé: “Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim (Jo 6, 56-57).

Tanto nós, os sacerdotes, como todos os outros cristãos que assumem qualquer ministério na Igreja, temos um primeiro desafio pela frente: deixar-nos encantar por Cristo, crescer no amor à Sua Igreja e na paixão pela salvação da humanidade. Sem paixão por Cristo e sem nos sentirmos os mais felizes dos homens pelo facto de, sem merecimento algum termos sido chamados por Ele e associados de um modo muito particular à sua pessoa e missão, nunca seremos agentes de renovação da Igreja. A diocese de Coimbra precisa urgentemente de sacerdotes, religiosos e leigos alegres por viverem com Cristo e por Cristo.

3. A PASTORAL DA FÉ

Frequentes vezes tenho sido abordado pelos meios de comunicação social e por algumas pessoas desejosas de saber quais são as minhas prioridades pastorais. Dentre tantos aspectos importantes e urgentes que podemos elencar, creio que a pastoral da fé está subjacente a todas elas.

No texto já referido do Evangelho de João, o evangelho da fé, há uma palavra inspiradora. As multidões, depois de serem saciadas na multiplicação dos pães, perguntam a Jesus: “Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?” Ele responde-lhes: “A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou” (Jo 6, 28-29).

A acção e estruturas da Igreja têm sentido e realizam a sua missão se estão ao serviço do crescimento da fé, ou seja, se levam as pessoas a crer naquele que o Pai enviou. Mais urgente se torna esta séria pastoral da fé no contexto de acentuada descristianização em que nos encontramos.

A acção da Igreja Diocesana há-de consistir prioritariamente em proporcionar os meios necessários para um caminho pessoal de conhecimento de Jesus Cristo, de encontro com Ele e de aprofundamento dos laços de comunhão com Ele. Essa acção tem de dirigir-se aos que estão fora da Igreja e precisam de encontrar uma fé porventura perdida ou que nunca germinou; aos que estando oficialmente dentro da Igreja por tradição cultural, perderam o sentido de Deus e precisam de ser reevangelizados; aos que estando dentro e sendo inclusivamente praticantes não têm uma fé enraizada, esclarecida ou comprometida.

Quando a Igreja propõe a Nova Evangelização, tem como objectivo centrar-nos de novo em Jesus Cristo e no Evangelho, utilizando os métodos e os meios adequados ao mundo actual. É necessário um novo ardor, como nos disse já o Papa João Paulo II e repetiu o Papa Bento XVI.

Gostaria que os próximos anos fossem essencialmente voltados para esta pastoral da fé, para a nova evangelização das comunidades, para o conhecimento de Jesus Cristo, para a adesão íntima e profunda a Ele. Este é o pressuposto básico para que qualquer renovação das estruturas eclesiais não seja uma operação estratégica vazia de significado, não compreendida nem desejada pelo Povo de Deus. É a partir de comunidades cristãs com uma fé forte, esclarecida e assumida que é possível fazer a passagem de uma Igreja centrada nas tradições populares religioso-culturais para uma Igreja assente em critérios evangélicos.

Ouso apontar três áreas sobre as quais deverá recair o nosso investimento num futuro imediato e que poderão ser objecto privilegiado do próximo/os Planos Diocesanos de Pastoral:

Eucaristia e Sacerdócio. É necessário aprofundar o lugar e significado da Eucaristia e do Sacerdócio na vida da Igreja, particularmente numa Diocese onde se multiplicam as celebrações dominicais na ausência de presbítero e onde as vocações sacerdotais são em número tão reduzido. É prioritário levar as comunidades a tomarem consciência do lugar insubstituível da participação na missa dominical, mesmo com sacrifício. O pior que poderia acontecer era os cristãos equipararem a Celebração Dominical na Ausência de Presbítero com a Celebração da Eucaristia. Urge, por isso, definir os critérios orientadores nesta matéria e preparar e celebrar com qualidade extrema a Eucaristia, de modo que transpareça sempre como ponto alto do culto cristão. Ao mesmo tempo, é prioritário investimento numa séria catequese sobre o sacerdócio na vida da Igreja e o trabalho em favor das vocações sacerdotais, como dimensão transversal a todos os sectores da pastoral da Igreja

Palavra de Deus. É necessário implementar um sério conhecimento da Sagrada Escritura, como Palavra de Deus que, juntamente com a Eucaristia, é o alimento de Deus para a sua Igreja. Não se pode fazer a nova evangelização sem propor aos cristãos a leitura, meditação e oração a partir da Palavra de Deus, tanto individualmente, como em família ou na comunidades cristã. A leitura litúrgica, a celebração da Liturgia das Horas e a lectio divina, acompanhadas pelo estudo bíblico são meios indispensáveis para o aprofundamento da fé. Temos de gastar muito tempo e energias a difundir entre os cristãos a prática da leitura orante da Bíblia, porque “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”.

Piedade popular. É necessário evangelizar a piedade popular, com manifestações tão ricas e expressivas em toda a Diocese. Concretamente, a piedade mariana tem sido muito valorizada pela Igreja, que reconhece o seu valor e apresenta critérios para o seu aproveitamento no Directório sobre Piedade Popular e Liturgia – Princípios e Orientações, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. A proximidade da celebração do centenário das aparições de Fátima poderá constituir um meio privilegiado de mobilização, que permita algumas acções de evangelização das massas. A devoção mariana bem enquadrada teologicamente pode ser um grande veículo para congregar o Povo de Deus.

4. REPENSAR AS ESTRUTURAS PASTORAIS DA DIOCESE

Li os mais recentes documentos de trabalho elaborados na diocese de Coimbra sobretudo no âmbito do Conselho Presbiteral, particularmente o documento intitulado “Adequação Pastoral da Diocese de Coimbra às Exigências da Renovação Conciliar e aos Novos Contextos Sociais”, de 1999; a proposta de “Directório para os Arciprestados em dinâmica de Unidade Pastoral”, de 2010; e o documento que reúne as respostas ao texto da Conferência Episcopal “Repensar Juntos a Pastoral da Igreja em Portugal – Reflexão feitas nas Assembleias”. Repassei também os documentos do XII Sínodo Diocesano.

Percebi que há uma longa reflexão feita acerca dos caminhos a percorrer na acção pastoral da Diocese, que precisa de ter continuidade em ordem a um maior amadurecimento. Esperamos que não nos falte a segurança necessária em ordem às decisões e à implementação das medidas definidas.

Ninguém terá já dúvidas acerca da inadequação entre os nossos meios, métodos e estruturas pastorais, por um lado, e a nossa realidade cultural, sociológica e eclesial. As comunidades cristãs e a nova evangelização exigem mudanças muito profundas, muita coragem e muita ousadia, que frequentemente chocam com algum comodismo ou com a inflexibilidade de pessoas e comunidades.

Permito-me elencar algumas iniciativas que me parecem mais prementes no momento de criar condições mais adequadas à acção da Igreja Diocesana, a curto prazo:

a) Criação de um Conselho de Coordenação Pastoral, que, juntamente com o bispo, elabore os planos e programas pastorais, e promova a unidade indispensável de toda a acção pastoral diocesana.
b) Redefinição do organigrama dos órgãos executivos da Diocese: secretariados, serviços, departamentos, comissões...
c) Criação do Centro Pastoral Diocesano, no qual tenham sede todos os organismos diocesanos e se optimizem as sinergias existentes.
d) Reestruturação do plano de formação teológica dos leigos e de formação para os ministérios laicais, admitindo a hipótese de centralizar toda a formação dos leigos numa única entidade com pluralidade de valências.

5. QUESTÕES PENDENTES, MAS URGENTES

5.1. ADEQUAÇÃO DAS ESTRUTURAS PASTORAIS

Está em curso uma reflexão alargada acerca da adequação das estruturas pastorais da Diocese às circunstâncias actuais e acerca da necessidade de rever as diferentes circunscrições eclesiásticas vigentes, a saber: vigararias episcopais, arciprestados, unidades pastorais e paróquias.

Existe já um esboço de documento intitulado “Directório para os Arciprestados – em Dinâmica de Unidade Pastoral”, surgido no âmbito do Conselho Presbiteral e que oferece um bom ponto de partida para o estudo e reflexão, que há que continuar.

Junto alguns aspectos que me parecem fundamentais no momento de equacionar a questão da união de paróquias.

Em traços muito largos, podemos dizer que o modelo do passado, uma paróquia, um pároco, salvo raras excepções, não é mais possível na actualidade. É preciso, por isso, prever formas de agregação das paróquias que tenham a marca da estabilidade e dêm garantias de futuro a um trabalho que já está em curso ou tem de iniciar. Os conjuntos de paróquias, também chamados Unidades Pastorais, têm de ser definidos, tendo em conta a dimensão, a população e as afinidades locais. O factor determinante para esta divisão há-de ser a própria realidade local e populacional e não as capacidades do sacerdote.

O modelo tradicional do sacerdote, que vive sozinho e, por vezes, isolado, não serve para os tempos presentes. Cada vez mais, a vida em pequenas comunidades sacerdotais é condição para a vivência feliz da fé cristã, para a entrega no serviço à Igreja e para que a ninguém falte o apoio humano e fraterno no meio de uma vida extremamente exigente.

As pequenas dimensões de algumas comunidades paroquiais, sobretudo nas regiões mais desertificadas e a prática cristã mais reduzida em muitas outras, impedem-nas de ter o dinamismo necessário ou confrontam-nas com a falta de meios humanos e materiais para sobreviverem com qualidade. A uma escala maior as possibilidades de qualidade celebrativa, catequética, evangelizadora, sócio-caritativa são maiores.

Do mesmo modo, o número e as fronteiras dos Arciprestados actualmente existentes, também carece de correcções.

Alguns, pelo facto de terem ao seu serviço um reduzido número de sacerdotes, acabam por não funcionar como arciprestados: é difícil programar acções comuns, não têm grande viabilidade as reuniões periódicas do clero com tão poucos participantes, e até o ofício de arcipreste acaba por ficar desvalorizado.

Tudo indica que o arciprestado para ter a relevância que lhe confere o Código de Direito Canónico tem de sofrer algumas mudanças na situação presente em que se encontra a diocese de Coimbra, como aliás nota o já referido documento de estudo.

5.2. FORMAÇÃO TEOLÓGICA E SACERDOTAL

Entre as questões complexas que a diocese de Coimbra actualmente enfrenta, está a da formação sacerdotal.

O Seminário Maior está a funcionar este ano com 20 alunos, dos quais 16 são da Diocese e 4 são de Cabo Verde.

O Instituto Superior de Estudos Teológicos funciona com o mesmo número de alunos, uma vez que, em virtude do Estatuto de Filiação na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, não pode acolher outros alunos senão os que se preparam para as Ordens Sacras. Acontece que, como condição para lhes ser conferido o título académico de Mestrado Integrado em Teologia, devem matricular-se durante dois anos na Faculdade de Teologia, onde fazem quatro cadeiras curriculares, dois seminários e a tese final de mestrado. Ao longo de dois anos estão a deslocar-se uma vez por semana ao Polo da Faculdade de Teologia do Porto com esta finalidade.

Estamos numa fase de indefinição quanto ao futuro do Instituto que, não pode prolongar-se por muito tempo, sob pena de prejudicar a formação sacerdotal e a actividade tanto de alunos como de docentes.

O objectivo do ISET seria evoluir do Estatuto de Filiação para o de Agregação. Para a Congregação da Educação Católica, a Filiação é a figura canónica dos institutos destinados à formação paras Ordens Sacras, ou seja, para os Seminários; e a Agregação é a figura canónica dos institutos destinados à formação teológica em geral. Deparamo-nos com algumas dificuldades concretas: o número reduzido de alunos, a escassez de pessoas dedicadas prioritariamente à actividade docente.

Estamos neste momento a estabelecer contactos com a Direcção da Faculdade de Teologia no sentido de propormos a evolução para o Estatuto de Agregação. Reconhecemos que nos exigiria um grande esforço a todos os níveis, sobretudo na formação dos professores e no aumento do número de alunos, mas reconhecemos também que seria um meio extremamente útil para a formação teológica dos candidatos às Ordens Sacras e para a formação dos leigos, assim como para o diálogo fé e cultura, para o intercâmbio com o meio universitário e para credibilizar a presença da Igreja no mundo. Acreditamos que a região centro do país e a cidade universitária que é Coimbra tem necessidade de estudos teológicos.

Numa perspectiva realista, temos de admitir também a hipótese de não conseguir viabilidade para este plano. Isso implicaria a transferência do Seminário Maior para outro lugar, a fim de os alunos aí frequentarem a Teologia.

5.3. EDIFÍCIOS DA DIOCESE

A diocese Coimbra está deficitária no que diz respeito a instalações destinadas a actividades de carácter espiritual, formativo e pastoral:

- falta um Centro Pastoral;

- alguns Serviços estão mal instalados e dispersos por diferentes locais;

- sente-se a falta de uma casa de retiros;

- o edifício do Seminário Maior precisa de requalificação;

- a finalidade do Seminário da Figueira da Foz não está definida;

- o antigo edifício da Gráfica de Coimbra está degradado.

Urge, por isso, delinear uma estratégia de acção, que exige a ponderação dos seguintes aspectos: necessidades efectivas da Diocese, prioridades pastorais, conveniência da afectação de determinado edifício a determinada finalidade, capacidade económica.

Vamos debruçar-nos quanto antes sobre este assunto.

6. CONCLUSÃO

Nestes quase três meses de presença na Diocese de Coimbra procurei observar a realidade, colher informação, perceber as desilusões e aspirações de muitas pessoas com quem já contactei, sacerdotes e leigos. Regra geral, os cristãos mostram grande desejo de crescer na fé, de trabalhar na Igreja e de dar a volta às situações mais difíceis.

A Diocese tem pela frente grandes desafios que, espero, nos hão-de mobilizar a todos, particularmente a nós, sacerdotes enquanto participantes da missão de Cristo Pastor.

Procuraremos enraizar-nos bem na fé, por meio de uma vida espiritual profunda, alicerçada na Eucaristia, na Palavra de Deus e na oração pessoal profunda. O Espírito Santo dar-nos-á a capacidade de discernimento necessária para colaborarmos com Ele na edificação da Igreja, sacramento de salvação da humanidade.

Peço a Nossa Senhora, Santa Maria de Coimbra, que nos ampare nesta tarefa que confiados na sua protecção assumimos.

Coimbra, 29 de Setembro de 2011
+ Virgílio do Nascimento Antunes
(Bispo de Coimbra)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ano Pastoral 2011 / 2012

A expressão, da Sagrada Escritura, que orientará toda a nossa actividade no próximo ano pastoral será esta, retirada da Carta aos Hebreus, cap. 4, versículo 12:

A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb. 4, 12)
Esta expressão remete-nos para Cristo - a Palavra Viva; para a eficácia da palavra do Ressusucitado mediante o Seu Espírito; e para a necessidade de tornar eficaz, na vida quotidiana, a Palavra que recebemos.
Por outro lado, consubstanciam-se a necessidade de aprofundar, celebrar e viver a Palavra, permitindo que a sua eficácia se estenda a todos aqueles com quem partilhamos o nosso quotidiano. É um convite a centrarmo-nos em Cristo e a testemunhá-Lo com toda a nossa vida.
Pe. Carlos Godinho