domingo, 8 de abril de 2012

HOMILIA DE DOMINGO DE PÁSCOA

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
08.04.2012


Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade (1 Cor. 5, 7 – 8).

1. O mistério da morte e ressurreição do Senhor Jesus, acontecimento central da nossa fé de cristãos, e manifestação plena do amor de Deus aos homens, realiza plenamente todo o sacrifício da Antiga Aliança, simbolizado na imolação do cordeiro pascal e no alimento com o pão ázimo. A Antiga Aliança, na pedagogia bíblica, prepara a nova e definitiva Aliança – a imolação do verdadeiro Cordeiro Pascal, que é o próprio Cristo; e a vida nova dos batizados, cuja vida se assemelha, na linguagem paulina, à destruição do antigo fermento do pecado para ressurgir agora como alimento novo, numa vida santa e pura, dom de Deus aos seus filhos, pelos méritos da morte e ressurreição do Seu Filho Unigénito. Por isso cantamos, plenos de alegria, «Ressuscitou Cristo, minha esperança, o Cordeiro que resgatou as ovelhas» (cf. Sequência Pascal); ou afirmamos, ainda, com Santo Agostinho: «Com a sua Ressurreição, nosso Senhor Jesus Cristo converteu em glorioso o dia que a sua morte tornara triste. Por isso, trazendo solenemente à memória aqueles dois momentos, permaneçamos de vela recordando a sua morte e alegremo-nos acolhendo a Sua ressurreição. Esta é a nossa festa anual, a nossa Páscoa, não figurada pela morte de um cordeiro, como o foi entre o povo antigo, mas realizada, para o povo novo, pelo sacrifício do Salvador, pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, e o que era antigo passou; tudo foi renovado» (Santo Agostinho, Sermão 220).
De igual modo, o apóstolo nos convida, nesta mesma passagem, da Carta aos Coríntios, a conformarmo-nos com a nova condição de filhos de Deus, que recebemos pelo batismo, pois que nele fomos incorporados em Cristo, para que o nosso canto seja perfeito – já não apenas saído dos nossos lábios, mas igualmente do nosso coração e das nossas vidas, como resposta sincera e jubilosa ao convite formulado pelo apóstolo: «celebremos a festa, não com o fermento velho, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade» (1 Cor. 5, 8).
A alegria pascal resulta simultaneamente deste encontro íntimo de corações: o de Deus, que no Seu Filho, morto e ressuscitado, nos envolve na plenitude da Sua misericórdia; e o do homem, que aberto ao dom inefável do amor divino, por ele modela a sua vida numa existência radicalmente nova, ainda que a iniciativa da salvação seja sempre de Deus, que «demonstra o Seu amor para connosco pelo facto de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores» (Rom. 5, 8). É ainda São João Crisóstomo quem nos convida a viver esta existência nova de batizados, ao ensinar-nos: «É justo que aqueles que têm Cristo, não representado nas vestes, mas para sempre na alma e, com Cristo, o Pai e a presença do Espirito Santo dêem provas de firme segurança e mostrem a todos, pela exatidão do comportamento e pela vigilância de vida, que trazem a sua imagem real» (S. João Crisóstomo, Catequeses Batismais, IV).

2. A Páscoa, cujo significado é precisamente o da passagem da morte à vida, significa o inolvidável acontecimento da vida que ressurge em Cristo crucificado e morto, a quem Deus ressuscitou ao terceiro dia (cf. Act. 10, 40), mas também a nossa ressurreição com Ele, pois que «pelo batismo nós fomos sepultados com Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova» (Rom. 6, 4). E este acontecimento salvífico não se restringe já a um só povo, raça ou nação; é, ao invés, um dom oferecido a todos os homens que acolhem Cristo na fé e n’Ele são batizados. Assim aconteceu com o centurião Cornélio, a quem Pedro se dirige na primeira leitura de hoje, e assim acontece com todos os homens que se abrem ao dom de Deus, ao longo de toda a história humana.
Na morte e ressurreição de Cristo, as profecias atingiram o seu termo e total realização, em sentido plenamente universal, como refere Pedro: «É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados» (Act. 10, 43); para logo, na perspetiva universalista, ser secundado por Paulo: «pois todos os que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo. E, se sois de Cristo sois então descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa» (Gál. 3, 27 – 29). O passado é suplantado pelo presente contínuo do dom de Deus a cada homem, e a todos os homens, até à consumação do tempo e da história, unindo-nos numa única e mesma comunhão fraterna – a Igreja – como o único corpo, de que Cristo é a Cabeça (cf. 1 Cor. 12, 12 – 13). A vida oferece-se a cada um plenamente, enquanto dom amoroso do ressuscitado, que, na força do Seu Espírito, quer que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo. 10, 10).

3. A Páscoa transforma-se, então, em convite sempre renovado para todos nós – cristãos e humanidade inteira. Aos primeiros, os que já aceitámos Cristo pelo batismo e queremos seriamente configurar-nos com Ele, exige-se-nos o dom do acolhimento da sua graça, veiculada pelo dom do Seu Espírito; pela graça sacramental, de onde sobressai o dom da Eucaristia, pois nela o Senhor nos dá o Seu corpo a comer; e pela intimidade divina, que nos permite deixar que o Ressuscitado, na força do Seu Espírito, no molde à sua imagem. Por outro lado, exige-se-nos igualmente que o imitemos com toda a nossa vida, obedientes àquele mandamento que Ele nos deixou como testamento pessoal, no contexto da última Ceia: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros» (Jo. 13, 34). Acrescentando ainda: «Nisto reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros» (Jo. 13, 35). Sabendo que – para retomar as palavras de Paulo, na segunda leitura de hoje - a prática do amor é que nos fará alimentarmo-nos dos «pães ázimos da pureza e da verdade» (1 Cor. 5, 8), pois que a caridade, na expressão do apóstolo, é o vínculo da perfeição» (Col. 3, 14).
O Pastor de Hermas – um escrito antigo – dirige-se-nos também a nós, nesta hora pascal, como aos primeiros cristãos: «Perseverai, pois, vós que praticais a justiça, expulsai toda a hesitação para caminhardes com os santos Anjos. Felizes, vós que esperais a pé firme a prova que vai chegar, a grande tribulação, e felizes todos os que não renegarem a sua vida» (Pastor de Hermas, Visão 2, nº 7).
Mas a Páscoa é um dom singular para toda a humanidade. O único capaz de responder à sede de vida que habita o coração de cada homem e de todos os homens.
Vivemos hoje um tempo culturalmente marcado pela inquietação e pela incerteza. Um tempo em que a humanidade, apesar das alterações políticas, económicas, sociais, e mesmo ambientais, que assumiram uma nova ordem, se continua a consumir na transitoriedade e no imediatismo, que esvazia e dispersa, impedindo um encontro profundo do homem consigo próprio e com o pleno sentido da sua vida. Um tempo de felicidades aparentes, às quais faltam dimensão de plenitude. Mas é a este homem – o homem de hoje, tal como o de ontem – a quem o Senhor se dirige, no presente da sua história, convidando-o a uma relação de amor, coração a coração, na força da vida doada pelo Ressuscitado. Sim, porque o amor de Deus não cessa; pois, como o Senhor Jesus nos diz no Evangelho de João, «Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo. 3, 16). O convite é à abertura ao amor que plenifica, que nos faz regressar a todos à casa do Pai, onde nos reencontramos com o projeto inicial de felicidade que Deus traçou para nós e que agora nos é dado plenamente no mistério pascal de Cristo, o Seu Filho e Senhor nosso.
Mas para que o homem de hoje se reencontre com Cristo e com a vida que Ele nos oferece, urge que a Igreja e, nela, cada cristão, assuma a missão que o Senhor lhe confiou e que Pedro claramente expressa, na primeira leitura de hoje: «Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém» (Act. 10, 39), para logo, de imediato, nos remeter para a missão que ele mesmo havia recebido e que se há-de perpetuar pelo tempo: «Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído juiz dos vivos e dos mortos» (Act. 10, 42); a nós «que comemos e bebemos com Ele» (Act. 10, 41).

A concluir, peçamos ao Senhor Ressuscitado que, nesta Páscoa, renove em nós a Sua vida e nos acolha, fazendo-o com as palavras de um antigo hino do século II:

«Filho de Deus, tende piedade de nós
E procedei connosco segundo a vossa misericórdia.
Tirai-nos das cadeias das trevas:
Abri-nos a porta, a fim de irmos para Vós.
Sejamos também nós redimidos convosco,
Porque Vós sois o nosso Redentor.
Ouvi a sua voz,
E selei o meu nome sobre as suas cabeças;
Porque eles são homens livres e pertencem-Me.
Aleluia».
(Odes de Salomão, Ode XLII).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Horários das Missas

Porque uma boa parte das mensagens recebidas no email das Paróquias se destina a procurar informação sobre os horários das Missas nas Paróquias, particularmente no Luso, pela sua natureza de estância turística, na barra lateral ficam disponíveis os horários das duas Paróquias, bem como o horário de atendimento nas secretarias Paroquiais.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Homilia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Paróquias de Luso e Pampilhosa)

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
1 DE JANEIRO DE 2012

Introdução
Este primeiro dia do ano, celebração da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, que encerra a oitava de Natal, é marcado por múltiplos elementos que enriquecem a nossa reflexão e celebração. Sendo o dia dedicado a Maria, permite-nos reconhecer a grandeza da sua maternidade – Daquela que tudo meditava em seu coração (cf. Lc. 2, 19) -, colocando-nos, igualmente, ao iniciar-se um novo ciclo anual, sob a sua protecção maternal; enquanto, por outro lado, ainda, nos apresenta o seu modelo de fidelidade à missão que Deus lhe confia, ao constitui-La Mãe do Seu Filho feito carne no meio de nós. Maria, que nos dá Cristo, pela Sua intercessão, favorece o nosso contacto com o mesmo Cristo (cf. LG. 60), a quem agora nos conduz, na ordem da graça.
Mas este dia - primeiro do ano - é também dedicado à paz, segundo a vontade do Papa Paulo VI, que, em 1968, instituiu o Dia Mundial da Paz, «como augúrio de um novo ano e de uma nova era de paz». Na celebração do seu quadragésimo quinto dia, o Papa Bento XVI propõe-nos, como mensagem, o tema: Educar os Jovens para a Justiça e a Paz; reflexão que merece a nossa atenção cuidada e disponível, para que, celebrando Cristo «Príncipe da Paz», renovemos os nossos laços de autêntica comunhão fraterna, olhando especialmente, neste ano, para a formação das novas gerações.
Precisamente por estarmos situados no primeiro dia do ano, a Igreja, na senda dos sacerdotes da Antiga Aliança, convida-nos ainda a invocar a bênção de Deus sobre o Seu povo, agora constituído como novo Israel que vive «aquela aliança nova e perfeita que haveria de selar-se em Cristo, e da revelação mais plena que o próprio Verbo de Deus, feito carne, viria comunicar» (LG. 9).
O sentido profundo da bênção e a mensagem para o Dia Mundial da Paz – da paz que não é apenas «ausência de guerra», mas que pressupõe uma verdadeira disposição interior para viver a dignidade da pessoa humana, a livre comunicação entre pessoas e a salvaguarda dos seus bens (cf. CIC. 2304; MDMP. 5) – merecerão a nossa breve atenção nas linhas que a seguir se propõem.
1. Abênção na Sagrada Escritura
De entre as múltiplas expressões de bênção, que encontramos na Sagrada Escritura, sobressai para nós, hoje, a do Livro dos Números (1ª Leitura) recitada pelos sacerdotes sobre todo o Povo de Israel: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilharsobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz» (Num. 6, 24 – 26). Esta bênção, cujo texto se constituiu como fórmula oficial para abençoar o povo, em qualquer ocasião em que a assembleia do Israel antigo se reunia, era proclamada pelos sacerdotes, ainda que, na sua forma originária, fosse proclamada pelo rei, a quem competia exercer funções sacerdotais e que abençoava em nome de Deus. Na verdade, é sempre Deus quem abençoa o Seu povo, particularmente quando este se reúne para um encontro consigo. Sendo uma assembleia litúrgica, Deus é colocado nominalmente no meio do Seu povo, a quem dispensa as Suas graças. É o próprio nome de Deus, proclamado sobre o povo, que se torna a fonte de todas as bênçãos e não qualquer outra consideração de carácter ritual ou mágico, pois Deus é que é a fonte de todos os bens. Estar na presença de Deus é fonte de bênção, enquanto a Sua ausência é fonte de privação desse dom.
Ora, para nós cristãos – que temos a graça de nos unir a Cristo intimamente, pois pelo Baptismo estamos configurados com Ele, formando o seu corpo místico (LG. 7) - esta bênção adquire um sentido ainda mais profundo: a verdadeira bênção é a participação da própria vida de Deus, que Ele, na Sua bondade, nos comunica no Seu Filho feito carne no meio de nós. Ou seja, a nossa verdadeira bênção é Cristo, garantia da plenitude da vida, pois n’Ele o Pai nos predestinou «para
sermos Seus filhos adoptivos, conforme o beneplácito da Sua vontade» (cf. Ef. 1, 5). Na sequência do Livro dos Números, a nossa protecção torna-se o próprio Cristo, cuja face nos é favorável e que se constitui para nós a fonte de toda a paz. Por isso o papa interpela a todos, e especialmente aos jovens, a compreender que «não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno» (MDMP. 6). Esta verdade e esta vida contemplamo-la todos nós em Cristo, «o caminho, a verdade e a vida» (Jo. 14, 6), Aquele – o único – por Quem chegaremos ao Pai (cf. Jo. 14, 6).

2. O tempo presente
No tempo presente, muitas são as propostas de realização e felicidade que nos chegam de diversos quadrantes. Mas muito poucas comportam consistência e essencialmente nos conduzem à plenitude da vida que buscamos. Os jovens, como todos nós, imersos nesta sociedade que cultiva o relativismo, «nada reconhecendo como definitivo», mas deixando somente como «última medida o próprio eu com os seus desejos», o que nos fecha em nós próprios, separando-nos «uns dos outros» (cf. MDMP. 3), são também as maiores vítimas desta sociedade que lhes nega – como bem refere o papa – «o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia, contribuindo para a construção de uma sociedade de rosto mais humano e solidário» (MDMP. 1); o que, não raro, é fonte de desânimo ou mesmo de contestação – seja ela activa ou silenciosa.
Na verdade, vivemos um conjunto de «falências» na cultura moderna, que provêem já de um passado longínquo, cujas raízes se encontram no iluminismo do séc. XVIII. O ideal do homem sem Deus – que se afirmou em muitas ideologias do século XX; o ideal do sucesso económico e material sem fim, fruto de uma sociedade tecnocrata e consumista; e mesmo o ideal da contínua perfectibilidade do homem, cujas raízes provêem desses tempos mais longínquos da história; manifestam-se hoje como ideais falidos, sem capacidade de responder aos desafios concretos com que cada um se confronta, no concreto das suas vidas. Necessitamos, por isso, de regressar à verdade mais essencial sobre a nossa identidade humana: aquela consciência da «dignidade da pessoa», que leva cada um – na expressão do Vaticano II – a exigir «poder agir de acordo com os seus critérios no exercício de uma liberdade responsável, guiados apenas pela consciência do dever e não por qualquer coacção» (DH. 1), que se opõe a uma concepção de liberdade marcada pelo relativismo do eu absoluto, julgando-se independente de todos, podendo «fazer tudo o que lhe apetece», acabando «por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade» (MDMP. 3). É que, de facto, sob a aparência de uma liberdade sem fim, o relativismo hodierno transformou-se na maior coação mental, social e cultural, que nos chega de formas diversas, e que esvazia o sentido profundo da vida humana.
Ora, os jovens de hoje – adultos de amanhã – necessitam de ser formados na verdade e na justiça, como refere o papa, de onde sobressai, como «primeira educação», «reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem a sua vida conforme a esta sublime dignidade» (MDMP. 3). Este é o desafio lançado a todos os que têm a tarefa de educar os mais jovens, significando educare «conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa», tarefa esta confiada à família, às instituições educativas, aos responsáveis políticos, ou ainda aos meios de comunicação social, cuja acção é tão importante, pois que é estreita a relação entre «comunicação e educação» (cf. MDMP. 2).

3. A bênção que nos é oferecida
A maior bênção que nos é oferecida é a condição de filhos de Deus e irmãos uns dos outros, o que nos permite tomar consciência de nós mesmos, mas nunca de forma isolada. É o próprio Jesus, feito carne, quem nos revela, na Sua humanidade, o valor da vida humana e nos ensina a reconhecer o outro como nosso verdadeiro irmão, pois que Ele foi o primeiro a fazer-se próximo de cada um de nós. Assim, descobrir em Deus, feito carne, a liberdade autêntica (cf. MDMP. 3) é primeira condição para alcançar a verdadeira bênção - enquanto benefício ou graça mais sublime - de que não pode separar-se o serviço aos outros, pois que justiça e caridade, na concepção cristã, resultam desta «mesma identidade profunda do ser humano» (MDMP. 4). Como nos recorda ainda o papa «a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor» (MDMP. 4). A nossa felicidade, ao longo de um novo ano, resulta essencialmente desta consciência profunda de nós – que já não somos escravos, mas filhos, como refere a segunda leitura de hoje (cf. Gál. 4, 7) - e do serviço que prestamos aos demais. Isto é, depende do modo como acolhemos os dons de Deus e os transformamos em verdadeiros dons humanos, colocando-os ao nosso serviço, em verdadeira atitude de acção de graças, mas igualmente ao serviço uns dos outros.

Conclusão

No início de um novo ano, que o Senhor nos conceda a graça de reconhecermos a bênção que nos foi dada, pois que o Pai «nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus» (Ef. 1, 3), predestinando-nos «para sermos seus filhos adoptivos por Jesus Cristo» (Ef. 1, 5) - o fundamento da nossa suprema glória; e nos faça reconhecer na caridade o «vínculo da perfeição» (Col. 3, 14), sabendo que, por ela, «passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos» (1Jo. 3, 14).
Que a Virgem Mãe, para quem olhamos e a quem nos confiamos neste primeiro dia do ano, vele por todos nós e nos conceda, pela graça da Sua intercessão, que o olhar de Deus repouse sobre nós, no seja favorável e nos conceda a paz. A ela, Mãe de todos os cristãos, recomendamos especialmente os nossos jovens, para que estes encontrem em Deus a fonte da vida; e numa verdadeira cultura da justiça e da paz, sejam os construtores de um mundo com um «rosto mais fraterno e humano», verdadeiramente digno da nossa condição de homens e de filhos de Deus.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Homilia da Missa do Dia de Natal (Luso e Pampilhosa)

MISSA DIA DE NATAL
25.12.2011

«N’ Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens» (Jo. 1, 4)

Introdução

O mistério de Natal, na multiplicidade das suas celebrações – especialmente a Missa da noite e a Missa do dia – permite-nos contemplar a dupla dimensão do mistério da encarnação do Verbo de Deus – a Sua humanidade e a Sua divindade, sem que se distinga o «acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus» (cf. CIC. 464). Como bem diz o Catecismo da Igreja Católica, «Ele fez-se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem» (CIC. 464); ou seja, «É verdadeiramente o Filho de Deus, feito homem, nosso irmão, e isso sem deixar de ser Deus, nosso Senhor» (CIC. 469). Mas, na pedagogia litúrgica, se ontem o nosso olhar se detinha na humanidade do Verbo da vida, hoje permite-nos contemplar, de modo especial, o mistério divino d’ Aquele que se fez carne no meio de nós – aquele que sendo da natureza do Pai e que com Ele existia, «habitou no meio de nós» (cf. Jo. 1,14). São João e a Carta aos Hebreus – a segunda leitura de hoje – deixam-nos entrever este mistério da preexistência do Verbo da vida, que, sendo um com o Pai, esteve na origem de todas as coisas, pois por Ele tudo foi feito e «sem Ele nada foi feito» (cf. Evangelho).
Por isso Ele é a vida, pois que é um com o Pai e a manifestação plena do Seu amor pelos homens. A vida que Jesus nos comunica é essa mesma vida do Pai, de que Ele participa na condição de Filho. Ora, ao fazer-se carne - o mesmo é dizer, ao fazer-se homem – esta vida revelada torna-se a luz dos homens. Isto é, mediante a Sua Encarnação, Jesus Cristo manifesta-nos o sentido pleno da nossa existência e rasga horizontes de plenitude que nada, nem ninguém mais, nos podem oferecer, porque nos oferece a vida que provém de Deus que é Pai, de que Ele é participante e que agora plenamente se nos manifesta. Neste sentido, N’Ele está a plenitude da vida; realidade que se torna a luz verdadeira para todos os homens. Mas o acolhimento da vida doada em Jesus Cristo pressupõe, da nossa parte, uma adesão livre e consciente – um verdadeiro acto de fé – que, na nossa liberdade, pode ser também de recusa. E é para aí que nos remete a continuação do Evangelho de hoje. Centremo-nos em três das afirmações que são bem expressivas do convite que nos é formulado pelo evangelista João.

1. «Os seus não o receberam» (Jo. 1, 11)

Se esta referência de João nos permite olhar para a Igreja nascente e para a recusa dos
judeus em acolher o Verbo de Deus, não deixa de nos questionar sobre o presente da nossa história e sobre a recusa de tantos irmãos nossos em acolher o Verbo da Vida. De igual modo, permite-nos compreender que também nós recusamos o Verbo de Deus quando d’Ele nos afastamos, seguindo critérios de vivência pessoal que se distanciam da Sua Pessoa e da Sua palavra. Com a expressão «agnosticismo», hoje tão presente na linguagem de alguns, particularmente de jovens e de jovens adultos, indica-se a falta de conhecimento ou, mais propriamente, «uma impossibilidade de conhecer» o mistério de Deus. Ora, com a Encarnação do Verbo, é Deus quem se dá a conhecer; é Ele mesmo quem se revela na nossa história e se faz próximo de cada um de nós. Assim, conhecê-Lo não é já uma impossibilidade, mas um dom que
a todos é oferecido. Basta, para tanto, que nos abramos, na simplicidade do coração, à revelação que continua mediante o Espírito e a acção confiada à missão própria da Sua Igreja. Afinal, o Deus Menino feito carne, no meio de nós, é o Senhor Vivo e Ressuscitado, que a todos ilumina e conduz à plenitude da vida. Mas, nas nossas comunidades cristãs, a predominância pode ser a de um denominado «agnosticismo prático», ou seja, tendo tido a possibilidade de conhecer o mistério de Deus revelado, muitos optam por viver à margem de Deus e da Sua palavra. De algum modo, uma existência humana vivida como se Deus não fosse importante, particularmente
numa sociedade de onde Ele parece estar cada vez mais ausente. O que compreende um drama humano, pois a vida deixa de ter sentido, sendo vivida – como refere o Cardeal Paul Poupard – «sem transcendência», de «uma maneira efémera», algo sem continuidade, feita da simples soma de alguns momentos, o que gera, consequentemente, a ausência de um verdadeiro futuro.
Este modo de viver, sem referência a Deus e à Sua palavra, revelada no Deus Menino, tem ainda como consequência uma verdadeira falta de humanidade, daquela humanidade que Ele, na sua Encarnação, nos revelou. Daí o drama profundo de vidas dissipadas pelos mais diversos
vícios humanos, ou manipuladas por interesses imediatos, tantas vezes espelhados nos grandes dramas pessoais e sociais com que nos confrontamos em cada dia, nomeadamente através da multiplicidade de meios de comunicação social.
Mas também nós, cristãos, nos poderemos manter na recusa em recebê-Lo se os nossos critérios pessoais assentarem na vivência egoísta da vida, no conflito, nalguma forma de exploração dos outros – pela falta de verdade ou de honestidade – ou simplesmente pela incapacidade de acolher mais profundamente a luz que o Verbo eterno nos revela na sua perene misericórdia.
Na verdade, contudo, a todos Jesus se oferece como a Palavra definitiva – o Verbo – do Pai, expressão plena do Seu amor para connosco. Uma palavra próxima, que partilha a nossa história e lhe rasga um sentido radicalmente novo, dizendo-nos quem Deus é para nós e quem nós somos para Ele.

2. «Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo. 1, 12)

Receber Jesus e aceitá-Lo pressupõe um verdadeiro acto de fé; isto é, o assentimento livre a Deus revelador, que, na riqueza do Seu amor, «fala aos homens como amigos e convive com eles, para os admitir à comunhão com Ele» (cf. CIC. 142). A obediência da fé - «submissão livre à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria verdade» (CIC. 144) – é condição para partilharmos a vida de filhos no Filho; herdeiros, com Ele, da plenitude da vida que Ele nos oferece pela Sua Encarnação, Morte e Ressurreição. Na verdade, Jesus fez-se carne, no meio de nós, para «nos tornar participantes da Sua natureza divina» (CIC. 460). Assim
compreendemos a expressão de João: «deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo. 1, 12). Esta realidade, que é sempre primeiramente iniciativa de Deus (cf. CIC. 51 – 52; 458), que deseja «que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm. 2, 4), pressupõe então esta livre adesão do homem a Deus e assentimento à verdade por Ele revelada (cf.CIC. 150), cuja expressão plena se encontra na revelação do Filho, feito homem no meio de nós (cf. 2ª Leitura), «a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai» (CIC. 65). E a consequência, como se referiu já, é a nossa própria filiação divina. A graça de nos tornarmos deuses, como referem os padres da Igreja, mormente Santo Atanásio e São Tomás que, respectivamente, o afirmam: «Porque o filho de Deus fez-se homem, para nos fazer deuses» e ainda «o Filho
Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da Sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses» (CIC. 460). Esta é, com efeito, a graça maior que nos é concedida pela Encarnação de Cristo – a filiação divina.

3. «Foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça» (Jo. 1, 16)

Com esta expressão, por seu turno, João diz-nos claramente que a Antiga Aliança foi
suplantada pela Nova Aliança realizada em Jesus Cristo. É, uma vez mais, a afirmação de que pela participação da Sua vida nos foi concedido o dom pleno da condição de filhos.
Mas que outras graças recebemos nós pela Encarnação de Cristo? Deixemos que o Catecismo da Igreja Católica nos responda, ao propor-nos a meditação do que recitamos no Credo, quando afirmamos «por nós homens, e para nossa salvação, desceu dos céus, e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem» (cf. CIC. 456).
Antes de mais, o Verbo fez-se carne «para que assim conhecêssemos o amor de Deus: ‘Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o Seu Filho Unigénito, para que vivamos porEle’» (CIC. 458).
Logo depois, o Verbo fez-se carne «para ser o nosso modelo de santidade» (CIC. 459), segundo aquela palavra do próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim» (Jo. 14, 6); ou ainda: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo. 15, 12),
significando que «este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos» (CIC. 459) no seguimento de Jesus Cristo.
E, finalmente, para «nos tornar participantes da natureza divina» (CIC. 460) como anteriormente referimos, a que podemos acrescentar ainda o comentário de Santo Ireneu de Lião: «Pois por essa razão o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus se fez Filho do Homem: foi
para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina, se tornasse filho de Deus» (CIC. 460).
Conclusão

A terminar, julgo que este é o momento oportuno – momento de graça – para compreendermos
profundamente o mistério do Verbo de Deus feito carne e de o testemunharmos a todos os nossos irmãos, com toda a força da nossa alma. Compreendermos, igualmente, a graça que nos foi dada mediante a plenitude do amor de Deus, realizada a nosso favor, fazendo de nós filhos no Seu Filho único, mediante a Sua encarnação.
Um forte convite, que nos responsabiliza, ainda, a vivermos como filhos da luz e herdeiros da vida, centrados em Cristo, nossa esperança, imitando-O na graça filial, na vivência da santidade e num permanente louvor ao Deus que é Pai e que no Seu Filho, nos encheu de todas «as bênçãos espirituais, nos céus» (Ef. 1, 3) e por Ele «nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos, conforme o beneplácito da Sua vontade» (Ef. 1, 5).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal de Sr. D. Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra


MENSAGEM DE NATAL

1. Natal de fé
A razão de ser da festa do Natal encontra-se na Pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus, incarnado no seio de Maria e nascido em Belém.
Enquanto cristãos, aprofundamos a consciência da fé que nos anima e procuramos dar sinais ao mundo de que ela nos fortalece em todos os momentos da vida, de sofrimento ou de consolação.
O presépio que fazemos nas nossas casas, nas igrejas e nos lugares públicos, não é somente o resultado de uma tradição cultural ou religiosa mas, na sua singeleza, é um sinal da fé na vinda ao mundo do Salvador.
Mais importante do que as tradições ligadas a esta quadra, e elas são muito ricas e expressivas entre nós, os cristãos hão-de privilegiar as atitudes de fé, que transformam a vida pessoal, familiar e social.

2. Natal de esperança
O natal de Jesus Cristo e o nosso natal é fonte da esperança mais autêntica, que não se baseia em realidades efémeras, mas em Deus, princípio de todas as coisas, e no Homem, criado para um futuro novo de glória.
As situações difíceis abundam e muitos homens e mulheres, nossos irmãos, são vítimas da ausência de razões para a esperança. A falta de condições materiais de vida afectam muitas famílias, que não podem ver um futuro sorridente e promissor para as crianças e os jovens. Os dramas humanos e espirituais sucedem-se e deixam prostradas muitas pessoas, que não têm as necessárias forças interiores para se levantarem e reanimarem.
A todos estes que, afinal, somos de algum modo, todos nós, o Natal convida a levantar a cabeça, e a contemplar o Emanuel, o Deus connosco, fonte de toda a esperança.

3. Natal de caridade
O nascimento de Jesus Cristo, juntamente com a Sua paixão e morte na cruz, constituem a grande revelação do amor de Deus para com a Humanidade. No modo de amar de Deus ganha nova luz todo o amor humano, a generosidade, a partilha. Em Jesus Cristo aprendemos os contornos da fraternidade mais radical, de quem dá o que tem e se dá a Si mesmo em favor dos irmãos.
Nos tempos difíceis em que vivemos, tem novas expressões a caridade de que o Natal é sempre mensageiro. A pobreza de muitas pessoas exige soluções que passam pelas mudanças estruturais da sociedade e pelo auxílio caritativo.
Que neste Natal, aprofundemos o sentido humano e cristão da fraternidade; procuremos mudar a nossa mentalidade egoísta; ensinemos às crianças e jovens a alegria de partilhar; abramo-nos a muitas iniciativas e campanhas de auxílio aos pobres.
Se nunca é lícito esbanjar, em tempos de fome e de pobreza à nossa porta, torna-se um ato ainda mais desumano. Haverá, por isso, um lugar privilegiado para a caridade pessoal e material, fruto de uma maior sobriedade nas festividades natalícias.
Um santo e feliz Natal!

Coimbra, 12 de Dezembro de 2011
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

NOTA PASTORAL SOBRE A SEMANA DOS SEMINÁRIOS

A Semana dos Seminários, de 6 a 13 de Novembro, traz à vida da Igreja Diocesana um dos mais importantes temas de reflexão, acção pastoral e oração: o sacerdócio ministerial. Jesus Cristo quis deixar-nos o grande dom dos sacerdotes que, agindo em profunda união com a Sua Pessoa, são intermediários insubstituíveis da acção santificadora da Igreja.
Os presbíteros em comunhão com o bispo recebem a missão inestimável de conduzir o Povo de Deus às fontes da salvação, por meio do anúncio da Palavra, da celebração dos sacramentos e enquanto vínculos de unidade das comunidades cristãs.
Os diáconos, disponíveis para o serviço da evangelização, da liturgia e da caridade, tornam-se cada vez mais sujeitos de uma vocação imprescindível à vida da Igreja, que, com eles, exprime melhor a riqueza do dom de Deus em favor do Seu Povo.
Nesta Semana dos Seminários, todos nós, diocesanos de Coimbra agradecemos ao Senhor da Messe a vida e acção de todos sacerdotes; agradecemos a Deus a possibilidade de celebrar a Eucaristia, fonte e cume de toda a vida da Igreja; agradecemos os seminaristas que se preparam para a recepção das Ordens Sacras e todos os que se dedicam ao trabalho de promoção
vocacional.
A causa das vocações sacerdotais é prioritária na Igreja Diocesana, uma vez que algumas comunidades paroquiais se encontram privadas da celebração regular da Eucaristia dominical e, por isso, impossibilitadas de aceder ao sacramento da comunhão com Cristo. Por isso, esta causa há-de estar presente como horizonte em todas as acções de ordem catequética, espiritual,
litúrgica e pastoral de todas as comunidades cristãs.
Peço encarecidamente aos presbíteros, diáconos, catequistas, animadores das comunidades, famílias e a todo o Povo de Deus, que se empenhem na oração e na acção pelo seminário, para que o Senhor da Messe encontre corações disponíveis para abraçar a vocação sacerdotal.
Bom seria que, de um modo mais intenso na Semana dos Seminários e regularmente ao longo de todo o ano, houvesse tempos de oração pelas vocações sacerdotais nas igrejas e capelas da Diocese de Coimbra: adoração semanal do Santíssimo Sacramento, vigílias de oração periodicamente, a oração diária do terço em comunidade e em família.
A Nossa Senhora, Mãe dos Sacerdotes, confio o cuidado pelas vocações sacerdotais na nossa diocese de Coimbra.

Coimbra,
1 de Novembro de 2011, Solenidade de Todos os Santos

Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PROGRAMA PASTORAL 2011 / 2012

Paróquias de
Luso e Pampilhosa

PROGRAMA PASTORAL
2011 /2012

«A PALAVRA DE DEUS É VIVA E EFICAZ» (Heb. 4,12)

INTRODUÇÃO

O presente ano pastoral de 2011 – 2012 terá como tema aglutinador a expressão, da Carta aos Hebreus, «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4, 12). Pretende-se continuar o aprofundamento bíblico, na sequência do ano pastoral anterior. Esperando, agora, que a proposta pastoral tenha uma aceitação muito mais decidida, por parte das comunidades e de cada cristão, do que aquela que pudemos registar no ano pastoral anterior.

Sendo este o elemento central da acção pastoral – o aprofundamento Bíblico – não esgota, como é óbvio, toda a acção da Igreja, a nível das comunidades, que terá de continuar a centrar-se nas quatro dimensões que lhe são próprias: a catequese; a liturgia; o serviço da caridade; e a dinamização das estruturas de comunhão. Contudo, todos estes aspectos estruturantes da vida comunitária terão uma referência directa à proposta aglutinadora, a partir da qual se compreendem e se podem dinamizar.
De igual modo, na hora actual da Igreja Universal e da Igreja Diocesana, urge responder aos apelos da «Nova Evangelização», enquanto renovação da vida interior das comunidades paroquiais e abertura a um testemunho coerente no mundo, vivenciando o mandato missionário que Cristo confia à sua Igreja: «Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos» (Mt. 28, 19).
Servem de fundamento a esta planificação os documentos do Vaticano II, com destaque para a Dei Verbum; a Exortação Apostólica Pós – Sinodal A Palavra do Senhor, do Papa Bento XVI; o Catecismo da Igreja Católica; os Lineamenta do Sínodo dos Bispo de 2012; a comunicação do nosso bispo, nas Jornadas Pastorais do Clero, Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral; o Décimo Segundo Sínodo Diocesano de Coimbra, de 1999; o livro Testemunha do Evangelho, do bispo espanhol D. Fernando Sebastián Aguilar[1]; e, de Enzo Bianchi, a Paróquia[2].

1. O tema do ano: «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4,12).

1.1. Conteúdo

Com a expressão da Carta aos Hebreus «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb. 4, 12), pretendemos sublinhar os seguintes aspectos fundamentais, para a vida das comunidades cristãs:
a) A Palavra de Deus é o próprio Cristo feito carne no meio de nós, em cuja incarnação o Verbo eterno «transmite as palavras de Deus e consuma a obra de salvação que o Pai lhe confiou» (DV. 4). A palavra do Ressuscitado permanece na Igreja, pela força do Seu Espírito, convocando-nos a uma escuta profunda e consequente, na conformação com a sua pessoa e com a actualidade dessa mesma palavra.

b) A eficácia da palavra advém precisamente da força do Espírito que a torna eficaz na Igreja, seja na liturgia, na oração pessoal ou noutros momentos de meditação, permitindo que a sua escuta se transforme num verdadeiro «diálogo entre Deus e o homem» (DV. 25), mediante o qual nos tornamos capazes de falar com Ele e de O escutar com toda a profundidade da nossa alma (cf. DV. 25).

c) A escuta desta palavra deve conduzir-nos à verdade do testemunho cristão, para que todos nós, na diversidade de géneros de vida, de profissões e de carismas, guiados pelo mesmo Espírito de Deus e obedecendo à voz do Pai, sigamos a Cristo pobre, humilde e carregado com a cruz, para merecermos participar na Sua glória (cf. LG. 41). Também neste sentido a palavra é eficaz, permitindo a construção do Reino de Deus no mundo ao qual somos enviados.

Ora, para que esta palavra seja eficaz na vida de cada cristão, é necessário escutá-la e conhecê-la. Neste sentido, exorta o Concílio Vaticano II «a que todos os fiéis aprendam a maravilha que é o conhecimento de Jesus Cristo, com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque ‘desconhecer as escrituras é desconhecer Cristo’» (DV. 25). Para logo continuar: «Debrucem-se, pois, amorosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por cursos apropriados, quer ainda através de outros meios que em nossos dias, com a aprovação e estímulo dos Pastores da Igreja, se vão difundindo tão louvavelmente por toda a parte» (DV. 25). E, na perspectiva da elaboração futura de um programa pastoral para a Diocese, é ainda o nosso Bispo quem nos convida a trilhar este mesmo caminho, ao referir: «É necessário implementar um sério conhecimento da Sagrada Escritura, como Palavra de Deus que, juntamente com a Eucaristia, é o alimento de Deus para a sua Igreja. Não se pode fazer a nova evangelização sem propor aos cristãos a leitura, meditação e oração a partir da Palavra de Deus, tanto individualmente, como em família ou na comunidade cristã»[3]. Para logo continuar: «A leitura litúrgica, a celebração da Liturgia das Horas e a lectio divina, acompanhadas pelo estudo bíblico, são meios indispensáveis para o aprofundamento da fé»[4]. Concluindo, então: «temos de gastar muito tempo e energias a difundir entre os cristãos a prática da leitura orante da Bíblia»[5]. E é o próprio Concílio que, na alusão ao tema escolhido para este ano, nos ensina ainda: «É tão grande a força e a eficácia da palavra de Deus, que se torna o sustentáculo vigoroso da palavra da Igreja, fortaleza da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Daí que se deva aplicar, por excelência, à Sagrada Escritura as palavras: a palavra de Deus é viva e eficaz (Heb. 4, 12), e tem poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados (Act. 20, 32)» (DV. 21).
Assim, o aprofundamento da Palavra de Deus, através da oração e do seu estudo, em ordem ao conhecimento das fontes da fé, ocupará um lugar privilegiado no ano pastoral que agora se inicia.

1.2. Objectivos

- Aprofundar o conhecimento Bíblico.
- Incrementar a vida cristã a partir da Lectio Divina (leitura orante da Bíblia).
- Valorizar o anúncio da Palavra em todos os âmbitos da vida comunitária.

1.3. Estratégias e recursos

- Formação de grupos de reflexão bíblica, na perspectiva da lectio divina – leitura orante da Bíblia[6].
- Revitalização dos grupos bíblicos, no Luso. Possibilidade de oração em pequenos grupos a partir da bíblia.
- Utilização dos livros: LA CASA DE LA BÍBLIA - O Tesouro do Escriba. Guia para uma leitura comunitária do Evangelho de São Mateus. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2007; Idem – o Verdadeiro Rosto de Jesus. Para uma leitura comunitária do Evangelho de São Marcos. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996; Idem, Curso de Iniciação á Leitura da Bíblia. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996. (Tradução do Pe. Idalino Simões).
- Uma especial atenção à preparação do anúncio da Palavra em todas as celebrações litúrgicas – Eucaristias; demais Sacramentos; Celebrações da Palavra.
- Especial atenção aos momentos de oração comum, antes ou no fim de cada reunião, com recurso contínuo à Palavra de Deus.

2. Nova Evangelização: «Novos cristãos, nova Igreja, nova cultura, nova sociedade»[7].

2.1. Conteúdo

A «Nova Evangelização» define-se, segundo a intuição do Papa João Paulo II, como «um meio de comunicação de forças com vista a um novo ardor missionário e evangelizador»[8]. É com este intuito que o Papa a refere, falando aos bispos da América Latina: «A comemoração do meio milénio de evangelização alcançará o seu significado pleno se for um compromisso vosso como bispos, juntamente com o vosso Presbitério e com os vossos fiéis; compromisso não certamente de reevangelização, mas de uma nova evangelização. Nova em seu ardor, em seus métodos, em suas expressões. Não se trata de fazer de novo qualquer coisa que foi mal feita ou que não funcionou, como se a nova acção fosse um implícito juízo sobre o falhanço da primeira. A nova evangelização não é uma duplicação da primeira, não é uma simples repetição, mas é a coragem de ousar novos caminhos, para atender às mudanças de condições dentro das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho»[9]. Continuando, refere o papa João Paulo II: «a nova evangelização é, antes de mais, uma acção espiritual; a capacidade de assumir, no presente, a coragem e a força dos primeiros cristãos, dos primeiros missionários. É, portanto, uma acção que requer, em primeiro lugar, um processo de discernimento acerca do estado de saúde do cristianismo, o reconhecimento das medidas tomadas e das dificuldades encontradas (…) [para] entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário»[10].
Já D. Fernando Aguilar, na sequência desta proposta do sumo pontífice, a define como «novos cristãos, nova Igreja, nova cultura, nova sociedade. Um programa para muitos anos, para várias gerações. Mas competindo-nos a nós começar, pôr o rumo certo e assentar os fundamentos»[11].
Neste mesmo âmbito, o nosso bispo, recentemente, resumia também assim a sua vontade, no que se refere à acção pastoral na nossa diocese, para os próximos anos: «Gostaria que os próximos anos fossem essencialmente voltados para esta pastoral da fé, para a nova evangelização das comunidades, para o conhecimento de Jesus Cristo, para a adesão íntima e profunda a Ele»[12].
Ora, é este caminho, fundado na escuta profunda da Palavra de Deus que havemos de trilhar, em comunidades paroquias, obedientes à voz do Espírito, que nos fala mediante os pastores da Igreja que nos confirmam na fé. Esta «Nova Evangelização» compreenderá, portanto, simultaneamente a renovação pessoal de cada um e das comunidades, no encontro pessoal com Cristo, e o testemunho vivo do seu amor, de modo a que muitos outros se possam aproximar d’Ele, o único que tem palavras de «vida eterna» (Cf. Jo. 6, 68).

2.2. Objectivos

- Criar estruturas que permitam o anúncio do Evangelho noutros espaços que não apenas os habituais, no âmbito das paróquias.
- Sensibilizar as comunidades para a necessidade de assumir com um novo fôlego a missão primeira da Igreja: «Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc.16, 15).
- Cruzar o aprofundamento Bíblico com a urgência da missão eclesial.
- Incentivar os fiéis leigos a serem presença viva e actuante como testemunhas dos valores do Reino de Deus nas estruturas seculares.

2.3. Estratégias e recursos

- Pela sua complexidade, o novo dinamismo evangelizador necessita de estruturas provadas na sua eficácia. Assim, contactaremos com os Cursos Alfa, aprofundando a sua pedagogia, em ordem à acção missionária no contexto das comunidades cristãs.
- Envolver as comunidades cristãs no dinamismo evangelizador, integrando, se possível, células de evangelização, na linha do recurso acima indicado.
- Urge promover uma séria reflexão comunitária sobre a Gaudium et Spes do Vaticano II. Programaremos, oportunamente, uma reflexão / conferência sobre esta Constituição Conciliar. Esta iniciativa insere-se, ainda, nas celebrações dos cinquenta anos do Vaticano II.
- Aproveitando a experiência de formação Bíblica, consciencializar os fiéis que o compromisso cristão, que brota da relação com Deus, pressupõe sempre a missão.
- Por ocasião da preparação do Sínodo dos Bispos sobre «Nova Evangelização», propor às comunidades um espaço de reflexão sobre os grandes desafios que hoje se colocam à Igreja, presentes nos Lineamenta do Sínodo. Esta reflexão pode ser realizada no âmbito de uma conferência, com um especialista nesta área de acção pastoral.

[1] Cf. AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2, 2005. (Tradução de Maria Armanda Saint- Maurice).
[2] Cf. BINACHI, Enzo e CORTI, Renato – A Paróquia. Prior Velho: Paulinas, 2006.
[3] D. Virgílio Antunes – Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral. Policopiado. Coimbra, 29 de Setembro de 2011, p. 4. (Comunicação do Senhor Bispo no encerramento das Jornadas Pastorais do Clero, realizadas na Praia de Mira, a 28 e 29 de Outubro de 2011).
[4] Ibidem, p. 4.
[5] Ibidem, p. 4.
[6] Para ver o esquema da Lectio Divina consulte-se o livro: LA CASA DE LA BÍBLIA – Curso de Iniciação à Leitura da Bíblia. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1996, p. 29.
[7] AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho, op. cit., p. 52
[8] Lineamenta do Sínodo dos Bispos de 2012, nº 5.
[9] Ibidem, nº 5.
[10] Ibidem, nº 5.
[11] AGUILAR, D. Fernando Sebastián – Testemunha do Evangelho, op. cit. p. 52. Cf. Ibidem, p. 98.
[12] ANTUNES, D. Virgílio do Nascimento – Possíveis caminhos para uma Nova Pastoral. Coimbra, 29 de Setembro de 2011, p. 4.
NOTA: Publica-se apenas a parte inicial (pontos 1 e 2); pela sua extensão ficam por publicar ainda o ponto 3 e 4 ( este último referente ao acompanhamento e avaliação da execução do Programa Pastoral. Algumas dificuldades com o blog não permitem a indicação devida das referências bibliográficas, mas que estão completas).