segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PROGRAMA PASTORAL 2012 - 2013



PROGRAMA PASTORAL
2012 /2013

«ESTA É A NOSSA FÉ!»
 

INTRODUÇÃO

O presente ano pastoral de 2012/2013 terá como tema aglutinador a expressão:

«ESTA É A NOSSA FÉ!»


  Com a Carta Apostólica Porta Fidei, o Papa Bento XVI convocou um ANO DA FÉ. Este iniciou-se no passado dia 11 de Outubro, durante o Sínodo dos Bispos do mundo inteiro, em Roma, com o tema “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, data que comemorou o 50º aniversário do início do Concílio Vaticano II, e que terminará em 24 de Novembro de 2013, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo. Coincidindo ainda, este mesmo ano, com o 20º aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica.

   Com o ANO DA FÉ, o Papa pretende colocar no centro da atenção de toda a Igreja, espalhada pelo mundo, aquilo que, desde o início do seu Pontificado, é um pensamento constante: o encontro com Jesus Cristo e a beleza da fé n’Ele. (In Programa Pastoral do Secretariado Diocesano da Evangelização e Catequese).

Tomámos, ainda, o capítulo III da Carta Pastoral do Bispo Diocesano para este mesmo ano, como fundamentação para o nosso programa pastoral.

 
DESCOBRIR NOVAMENTE OS CONTEÚDOS DA FÉ PROFESSADA, CELEBRADA, VIVIDA E REZADA (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 9).
 
1. A fé que professamos


O Ano da Fé constitui uma ocasião privilegiada para que a Igreja confesse a sua fé com renovado vigor e com uma consciência mais viva.

As comunidades cristãs e os crentes em geral conhecem pouco ou de forma muito superficial, o conteúdo da fé cristã e da doutrina da Igreja. Falta frequentemente aos cristãos a capacidade de enunciar e explicar tanto para si mesmos como para os outros as verdades fundamentais do Credo, fruto de uma catequese mais voltada para a adesão pessoal e a experiência comunitária do que para a aquisição de conceitos; outras vezes, fruto de uma doutrinação baseada na memorização, falta a compreensão dos diferentes artigos da fé que se repetem de memória sem que se conheça o seu alcance e significado.

A reflexão e o estudo do Credo, em ordem a uma melhor inteligência da fé, deverá ocupar parte importante das ações a desenvolver durante este ano. Grande ajuda dará a leitura e o estudo do Catecismo da Igreja Católica, publicado há vinte anos, tanto a nível individual como familiar e comunitário.

A leitura e o estudo dos Documentos do Concílio Vaticano II, particularmente das quatro Constituições, será uma ajuda para a compreensão do que é a Igreja e de qual a sua missão no mundo. Cinquenta anos depois do seu início, o Concílio continua a revelar-se como um acontecimento ímpar, como um dom inestimável do Espírito Santo e como fonte da tão desejada renovação da Igreja.

1.1. Atividades


·        Reflexão das 15 catequeses propostas pela diocese.

·        Caminhada semanal inspirada na liturgia dominical.

·        Retiro de jovens adultos: crentes e não crentes.

·        Reimpressão do caderno “Verdades e fundamentos da nossa fé”.

·        Disponibilizar a pagela do Credo e Símbolos dos Apóstolos aos paroquianos.

·        Valorizar a catequese de adultos como aprofundamento da fé e preparação para os sacramentos.

·        Disponibilizar algumas publicações de aprofundamento da fé.


2. A fé que celebramos

O Ano da Fé “será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (Sacrosanctum Concilium, 10)” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 9).

De facto, a celebração semanal da Eucaristia precisa de ser continuamente valorizada como a grande escola da fé da comunidade cristã. Ela deve constituir um marco fundamental da celebração do domingo e ser cuidada em todos os seus aspetos, com a colaboração estreita de todos os que nela desempenham algum serviço: leitores, cantores, acólitos, ministros extraordinários da comunhão.

O Ano da Fé deverá constituir uma oportunidade para se incentivar a formação de todos os que colaboram ativamente na celebração da liturgia dominical. Levará também os sacerdotes e diáconos a investir ainda mais na preparação pessoal e comunitária das celebrações, de modo que elas se tornem melhor expressão da fé.


2.1. Atividades


·        Cuidar da celebração eucarística: formação de acólitos, formação de leitores, renovação dos ministérios.

·        Fazer a profissão de fé (Símbolos dos Apóstolos) em algumas missas feriais e em celebrações exequiais.

·        Revalorizar o sacramento da penitência.

·        Celebrar, em comunidade, o sacramento da Santa Unção, na Quaresma.

·        Aprofundar os conteúdos da fé nas celebrações exequiais (Exéquias e missas de 7º dia).

·        Celebrar a hora de Vésperas em conjunto, nos tempos litúrgicos do Advento e Quaresma.

·        Efetuar um concerto de música quaresmal, como meio privilegiado para a compreensão da importância da música litúrgica para a celebração da fé.


3. A fé que vivemos
 

A fé cristã é adesão a Jesus Cristo e à sua Boa Nova, que tem consequências na vida dos crentes. Ela seria estéril se não fosse transformadora da realidade do mundo e da sociedade a que somos enviados, ou então, como diz a Epístola de S. Tiago, “... a fé, se ela não tiver obras, está completamente morta” (Tg 2, 17); “mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé” (Tg 2, 18).

“Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades (...) confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados” (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 13).

O Ano da Fé levará os cristãos a uma mais efetiva presença nas diversas realidades humanas, a um maior empenho na transformação da sociedade e da cultura, à luz da novidade do Evangelho assimilado e vivido.

Como recorda o Papa, “o Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade”, pois “a fé sem a caridade não dá fruto, e a fé sem a caridade seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida” (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 14).

 
3.1. Atividades

 
·        Incrementar o serviço de ação sócio caritativa, atendendo às novas formas de pobreza.

·        Realizar campanhas de partilha no Advento e na Quaresma, bem como outras a propor às comunidades paroquiais.

·        Incentivar os cristãos a visitarem doentes e dinamizarem grupos de atendimento fraterno.

·        Revalorizar o contributo penitencial, em conformidade com as indicações diocesanas.

·        Fazer uma ação de formação, para as comunidades paroquiais, sobre a Constituição Pastoral Gaudium et Spes.


4. A fé que rezamos
 

A oração faz parte integrante da vida do cristão, enquanto meio de fortalecimento da fé e da comunhão com Deus, de tal modo que Jesus ensinou os seus discípulos a rezar e incentivou-os a orar para não caírem em tentação (cf. Lc 22, 46).

A tradição da Igreja ensina que a oração exprime a fé e que, ao mesmo tempo, a alimenta.

O Ano da Fé constitui uma oportunidade para que implementemos hábitos de oração tanto a nível individual, como familiar e comunitário.


4.1. Atividades

 
·         Promover a oração familiar, nomeadamente no âmbito da catequese paroquial, usando como recurso o guião proposto pela Diocese.

·         Realizar semanalmente a Adoração Eucarística.

·        Valorizar as vigílias que se realizam habitualmente nas paróquias.

·        Incentivar cada cristão à oração pessoal – rezar o Credo algumas vezes na semana (se possível diariamente).

 
 
NOTA: Para além de todas as atividades indicadas, participaremos nas ações a dinamizar pela Igreja Diocesana. De igual modo, integram este programa todas as ações dos diversos organismos, movimentos ou serviços paroquiais, cuja programação foi já apresentada sectorialmente.

O texto de fundamentação (a azul) é retirado da Carta Pastoral do nosso Bispo: Ano da Fé - A alegria de crer e o entusiasmo de comunicar a fé. Coimbra, 15 de Agosto de 2012.

Luso - Pampilhosa, 26 de Novembro de 2012
Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
Pároco

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Apoio às Catequeses para o Ano da Fé


Começaram já a ser publicadas as Fichas de Apoio às Catequeses elaboradas para o Ano da Fé, na Diocese de Coimbra. Poderão ser consultadas em www.anodafe.pt.vu
O link está disponível neste blogue, na secção de «Páginas Web» (espaço lateral direito do blogue). Recordo que esta será uma caminhada que iremos iniciar em breve. Deverá consultar-se o material disponibilizado no site indicado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Carta Pastoral do Bispo de Coimbra - Ano da Fé

 
 
"A ALEGRIA DE CRER E O ENTUSIASMO DE COMUNICAR A FÉ"

 
CARTA PASTORAL DO BISPO DE COIMBRA - O ANO DA FÉ

 
INTRODUÇÃO
 
O Papa Bento XVI propôs a toda a Igreja o Ano da Fé, no contexto da celebração do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, dos vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica e tendo em conta a necessidade bem sentida de uma nova evangelização para a transmissão da fé cristã, que constituirá o tema do Sínodo dos Bispos a ter lugar em Outubro de 2012 (cf. BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 4).
O Secretariado da Coordenação Pastoral, recentemente constituído, desenvolveu uma séria reflexão acerca deste tema, proposto pelo Papa, e apresentou à Diocese - sacerdotes, secretariados, comissões, serviços e movimentos – as principais linhas orientadoras do programa do Ano da Fé.
Tomou-se como ponto de partida o número 9 da Carta Apostólica do Papa Bento XVI, A Porta da Fé, que diz: “Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (Sacrosantum concilium, 10). Simultaneamente, esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada (cf. JOÃO PAULO II, Constituição Apostólica Fidei depositum, 116), e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.”
Partiu-se do pressuposto fundamental de que o mundo precisa de ser evangelizado, em obediência ao mandato recebido do Senhor, e tendo em conta o contexto em que caminha a Igreja no nosso tempo.
A própria Igreja, sempre em estado de renovação interior, é constituída por homens e mulheres que assumem a fé cristã de formas diferentes, com maior ou menor alegria e fervor, e sente a urgência de uma nova evangelização. Foram veementes os apelos de João Paulo II e, agora, de Bento XVI, a incentivar-nos para realizar esta missão.
Se há cristãos a professar e viver fielmente a fé recebida, muitos outros estão marcados por uma enorme indiferença ou foram tocados pela onda de laicismo largamente difundida. Se há comunidades cristãs vivas, unidas, a viver a comunhão com Deus, autenticamente missionárias e a testemunhar o amor de Deus ao mundo, outras há que perderam a capacidade de congregar os irmãos e o vigor da fé.
Na diocese de Coimbra, temos a graça de encontrar homens e mulheres cheios de Deus, a professar a fé com entusiasmo e disponíveis para o serviço da Igreja, sobretudo nas comunidades locais e paroquiais. Percebemos, apesar disso, que precisamos de um novo ardor, pois as grandes massas de batizados e crentes estão, agora, muito indiferentes à fé, perderam os hábitos de participação na liturgia e noutras ações eclesiais, não vivem a alegria da adesão a Cristo como o Caminho, a Verdade e a Vida.
Por outro lado, se há ainda uma percentagem muito elevada de pessoas que se sentem discípulas de Jesus Cristo e membros da Igreja, maior é o número dos que deixaram de ter essa inquietação e que vivem à margem de tudo isso. Há ainda os que, apesar de se considerarem cristãos, não possuem convicções capazes de suportar uma vida de fé, nem incarnam os valores provenientes do Evangelho de Jesus Cristo.
A messe é muito vasta e inclui tanto os que estão dentro da Igreja como os que estão fora dela. Exige um trabalho que se oriente em dois sentidos: no sentido da profundidade em relação aos que, de uma forma ou de outra, já são discípulos de Cristo e membros da Sua Igreja; no sentido do alargamento das fronteiras, em relação aos que estão fora da Igreja, e são indiferentes, agnósticos ou ateus.
 
 
I. NÓS CREMOS E SABEMOS QUE TU ÉS O SANTO DE DEUS (JO 6, 69)
 
O capítulo 6 do Evangelho segundo S. João inicia com a narração da multiplicação dos pães e dos peixes, continua com o episódio de Jesus que caminha sobre as águas e transmite confiança aos seus discípulos amedrontados (Jo 6, 16-21). Anuncia depois que a obra de Deus consiste “em crer naquele que Ele enviou” (Jo 6, 29). Segue-se o longo discurso do Pão da Vida, que conclui com a confissão de fé de Pedro, em nome dos Doze: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus” (Jo 6, 68-69).
Este texto encerra em si um dos mais eloquentes paradigmas bíblicos do percurso da fé e das suas implicações na vida de cada crente e da comunidade cristã em que se insere. Convido-vos, por isso, a lê-lo e a refletir sobre ele, como ponto de partida para todas as atividades que vamos realizar no Ano da Fé.

 
1. “Seguia-O uma grande multidão” (Jo 6, 2).
 
A realidade do nosso tempo tem marcas muito distintas daquela que Jesus enfrentou quando as multidões O seguiam para toda a parte, como frequentemente refere o Evangelho. Estava-se num mundo em que a dimensão religiosa da vida era inquestionável, em que a fé era um dado adquirido e em que a dimensão transcendente fazia parte da cultura comum.
A figura do profeta, que fala de Deus e se apresenta como Seu mensageiro, surge sempre como uma esperança no meio de tantas desilusões, sofrimentos e portas fechadas aos anseios humanos. Se as palavras dos profetas tiveram tanto impacto no mundo antigo, maior teriam os sinais miraculosos realizados por Jesus e narrados pelo Evangelista. Os Seus contemporâneos ficavam deslumbrados com o Seu ensinamento, com os Seus gestos de misericórdia e com a Sua vida.
O mundo antigo manifestava uma certa apetência para Deus, mesmo que, por vezes, misturada com fanatismo sectário, sincretismo religioso, superstições. Havia um substrato social, cultural e humano que facilitava o acolhimento da Boa Nova, havia uma natural abertura a algumas dimensões entretanto perdidas, mesmo que, hoje, reconheçamos que era necessário um profundo trabalho de purificação das motivações e uma libertação das marcas pagãs.
A realidade que hoje enfrentamos tem contornos bastante diferentes, como reconhece o Papa Bento XVI, ao dizer: “Enquanto no passado era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade, devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 2).
Na atualidade, as multidões não seguem Jesus com o mesmo entusiasmo. Antes pelo contrário, surgiram muitos movimentos culturalmente influentes, que lutam contra quaisquer vestígios da dimensão religiosa da vida humana, catalogando-os como sinais de um passado definitivamente ultrapassado. Noutros casos, a dimensão religiosa é empurrada para a esfera do estritamente pessoal e do foro interno, negando-se-lhe a possibilidade de qualquer influência na vida da sociedade. No caso do laicismo mais exacerbado, não somente a religião, mas inclusivamente a questão de Deus é banida da reflexão humana, como questão definitivamente arrumada.
O ateísmo tornou-se um fenómeno deste tempo, como reconheceu o Concílio Vaticano II: “Ao contrário do que sucedia em tempos passados, negar Deus ou a religião, ou prescindir deles já não é um facto individual ou insólito: hoje, com efeito, isso é muitas vezes apresentado como exigência do progresso científico ou dum novo tipo de humanismo” (Gaudium et Spes, 7).
As multidões, tomadas por um materialismo prático, que as absorve nas suas ocupações imediatas e nas suas preocupações quotidianas, manifestam fraca apetência pela busca da fé e pelo encontro comprometedor com Deus. Tudo isso parece supérfluo a quem luta diariamente com tantas preocupações e dificuldades, numa sociedade complexa e exigente.
No episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, entre outras realidades, deparamo-nos com a afirmação da disponibilidade de Deus para vir ao encontro da humanidade em todas as circunstâncias, quando anseia por Ele e O deseja ou quando nem sequer reconhece que precisa d’Ele.
Jesus oferece-Se como dom às multidões, precisando que nós, a comunidade cristã, a Igreja, despertemos nelas o desejo de O conhecer, acreditar n’Ele e depositar n’Ele a sua confiança no meio de todas as apreensões e medos. Ele quer dar-se às multidões como o Pão da Vida Eterna e aproxima-se delas das mais variadas formas, a fim de que não lhes falte o alimento da salvação, segundo o desejo do Pai que O enviou. Na Sua Páscoa, Jesus realizará esse sinal, que agora permanece oculto aos olhos de muitos. Pela Sua morte e ressurreição realiza a missão de dar a salvação e a vida a todos os que acreditam n’Ele.
À comunidade cristã cabe ajudar a humanidade a entrar pela porta da fé, como caminho de encontro vital com Cristo, único Salvador, e com a Sua Igreja, sacramento da salvação. Uma vez que o terreno humano já não manifesta a mesma avidez de conhecer e encontrar Deus, a primeira tarefa consiste em causar provocação com interrogações acerca do sentido da vida e com o testemunho da alegria proveniente da entrega a Jesus Cristo na comunhão da Igreja.
 
 
2. “Sou Eu, não tenhais medo” (Jo 6, 20).
 
Ao caminhar sobre as águas, Jesus oferece um sinal para a fé, faz ver o poder de Deus que habita n’Ele e agora está no meio do Seu Povo, convida-o à confiança no meio de todas as adversidades.
Desde muito cedo que os leitores do Evangelho interpretaram a tempestade no meio do mar como uma imagem da realidade da vida humana fora dos horizontes de Deus, ou seja, do Homem entregue a si mesmo e desligado do Criador e longe da fé sobrenatural.
Esta situação sempre existiu, mas existe com novos contornos no nosso tempo, levando as pessoas a sentirem-se sozinhas no meio do mundo, alimentadas por uma esperança que não sacia e frequentemente marcadas pelo medo do futuro, pelo medo da vida e pelo medo da morte.
Ao dizer “sou Eu”, Jesus pretende levar os discípulos a reconhecerem n’Ele o Mestre, que já conheciam como companheiro e como amigo, mas antecipa também a palavra de revelação que aparecerá no final do capítulo, por meio da confissão de Pedro. Jesus é o Senhor, o Filho de Deus, o Salvador, Aquele que venceu a morte e que dessa forma dissipa todos os temores e realiza todas as potencialidades humanas.
Ao reconhecê-l’O, os discípulos acolhem-n’O na barca, saboreiam a calma e a paz da Sua presença, restabelecem a confiança que vence o medo.
A experiência humana continua a mostrar que o homem que se fecha a Deus não consegue libertar-se dos medos e angústias da vida. Por sua vez, quando se abre à fé e deposita a sua confiança em Jesus Cristo, que venceu o pecado e a morte, abriu horizontes de vida eterna, ultrapassa as barreiras que, por vezes, lhe parecem intransponíveis.
 
 
3. “A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou” (Jo 6, 29).
 
Quase a meio do capítulo 6, o autor sagrado centra-nos, de novo, no tema recorrente, o da fé.
É importante, tanto para a Igreja como para todos os homens de boa vontade que se interrogam acerca das questões centrais da vida, repor constantemente esta pergunta: “Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6, 28).
A resposta de Jesus aos seus discípulos é incisiva: “A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou” (Jo 6, 29). Trata-se da fé em Jesus Cristo como “caminho para se poder chegar definitivamente à salvação” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 3).
De facto, Deus enviou o Seu Filho ao mundo para que o mundo creia e seja salvo por Ele (Cf. Jo 3, 16); esta é a Sua obra: salvar o mundo por meio da fé em Seu Filho Jesus Cristo.
Deste modo, torna-se claro que a fé em Jesus Cristo é a grande proposta de Deus e a grande tarefa humana. Dela depende a salvação como único desejo amoroso de Deus, como recordou o Concílio Vaticano II: “só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja” (Lumen Gentium, 14).
Se Deus propõe constantemente a fé como um dom e fornece a graça necessária, ao homem cabe acolhê-la na fidelidade, num processo dinâmico, porventura paciente, longo e difícil. A Igreja tem aqui um papel insubstituível, proporcionando os contextos adequados para a experiência viva do encontro. A sua fé comprometida e viva, a comunhão profunda dentro da comunidade cristã, o testemunho de fidelidade na alegria, constituem os meios de que dispõe enquanto servidora da fé em Cristo e, portanto, colaboradora da obra de Deus.
No meio da dispersão de atividades, projetos e programas pastorais, somos convidados a repor a interrogação do Evangelho: “que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6, 28). A ação eclesial deve estar ao serviço da fé como a obra de Deus, como reconhece o Papa Bento XVI, e por meio dela “o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber da sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14)” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 3).
Reconhecemos, por isso, a urgência de nos mobilizarmos, enquanto comunidades cristãs, para esta missão específica, a que chamamos pastoral da fé, tanto voltados para aqueles que já integram a Igreja como para os que, batizados ou não, se sentem nas margens ou mesmo fora dela.
A obra de Deus consiste em crer n’Aquele que Ele enviou e a obra da Igreja, que não se entende na sua realidade e mistério desligada de Deus, é a mesma. Esta convicção exige de nós uma séria conversão na atitude pastoral e no modo de nos situarmos dentro da Igreja e na relação desta com o mundo.
Somos comunidade cristã que vive da fé no Filho de Deus que nos amou e se entregou por nós, e somos também comunidade voltada para o anúncio da mesma fé, isto é, que vive e assume a missão de evangelizar o mundo que lhe foi dado como tarefa.
 
 
4. “Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 35).
 
Pela fé o homem tem acesso a Deus, que se comunica como a Vida em todos os sentidos. Usando os diversos simbolismos da água, do vinho e do pão, o Evangelho pretende falar da vida de Deus ou da vida eterna, que é “depender de uma realidade exterior a si mesmo” (XAVIER LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan, vol. II, Sígueme, Salamanca, 1995, p. 77), da realidade do próprio Deus.
Pela fé, Jesus dá-se ao cristão e permite-lhe participar da realidade que é a Sua vida em plenitude, permite-lhe participar da sua própria existência e “transforma o seu ser, no mais profundo, numa vida voltada para o Pai” (XAVIER LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan, p. 79).
Pela Eucaristia, o horizonte mais direto deste texto bíblico, o cristão fica unido a Jesus, que passa a habitar nele e a viver nele, de acordo com o sentido da expressão “Quem realmente come a Minha carne e bebe o Meu sangue, fica a morar em Mim e Eu nele... quem realmente Me come viverá por Mim” (Jo 6, 56-57).
É nesta nova relação de Cristo com o crente, semelhante à relação do Pai com Cristo, o Filho, que se realiza a obra de Deus, ou seja a salvação do homem. É, portanto, a criação desta nova relação que constitui a missão da Igreja, enquanto instrumento da salvação de Deus, e é esta a meta da pastoral da fé que agora nos é proposta.
A nova evangelização, caraterizada por um novo método e um novo ardor, entende-se na fidelidade a este desígnio salvífico de Deus, que sentimos o dever de acolher com docilidade, com alegria e com gratidão.
 
 
5. “Nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus” (Jo 6, 69).
 
Diante da manifestação de Jesus, há duas respostas possíveis, espelhadas na divisão que se opera entre os discípulos. Alguns não puderam reconhecê-l’O e foram-se embora, de acordo com o que diz o texto: “A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele” (Jo 6, 66). Outros, porém, mantiveram-se firmes na atitude de fé e responderam pela voz autorizada de Pedro: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus” (Jo 6, 68-69).
A presença de Jesus entre nós impele a uma decisão pessoal, livre e responsável. Os dois verbos «acreditamos» e «sabemos» referem-se a essas duas dimensões fundamentais do ato de crer, que são a fé em si mesma e a inteligência da fé. Por outro lado, acentuam a dimensão existencial da fé, que ultrapassa os limites da inteligência e da compreensão para ser uma adesão pessoal, uma resposta de fidelidade e de amor a um Deus que se revela, se aproxima e estabelece laços de amizade com os seus filhos.
A própria designação usada pelo Evangelista, “Tu és o Santo de Deus!”, relaciona-se com a expressão mais comum “Filho de Deus”. Uma e outra acentuam a importância dos laços pessoais na mais profunda relação humana, que são a paternidade e a filiação, dois dos maiores paradigmas do amor entre as pessoas.
Reconhecemos a dificuldade que enfrenta o homem diante desta urgência da decisão da fé. Perguntamo-nos, por isso, quais os caminhos a empreender no momento de programar as linhas de orientação da pastoral da fé. Interrogamo-nos sobre que métodos e meios utilizar para provocar esta experiência existencial de relação capaz de abrir o homem de hoje à fé. Procuramos conhecer os caminhos do encontro do homem com Deus, num mundo e num tempo que são os nossos, marcados por um conjunto de condicionalismos que tornam mais difícil o processo. Temos diante uma missão que somente pode ser vivida com grande paixão e amor.
 
 
II. A ALEGRIA DE CRER E O ENTUSIASMO DE COMUNICAR A FÉ
 
Procuraremos neste Ano da Fé acolher os apelos do Papa, quando diz: “Também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor de uma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 7).
A evangelização, cujo conteúdo é o mesmo de todos os tempos, ou seja, é Cristo conhecido, acolhido e amado, precisa de lançar mão dos meios e métodos mais adequados para o tempo em que vivemos, a fim de chegar aos homens de hoje, em situação cultural com contornos próprios.
Indispensável é, como nos tem recordado a Igreja, o novo ardor, a alegria de crer e o entusiasmo de comunicar a fé.

 
 
1. A alegria de crer
 
Um dos melhores sintomas da fé é a alegria dos crentes. Maria encheu-se de alegria ao ouvir o anúncio do Anjo Gabriel, Isabel estremeceu no encontro com o Salvador, os que ouviram as palavras de Jesus e por Ele foram curados ou perdoados sentiram-se fora de si, na alegria do contato com o Filho de Deus.
Razão tem o Apóstolo para incentivar os cristãos, na Epístola aos Filipenses: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!” (Fl 4, 4).
No meio de todas as dores e penas da vida, quem crê em Jesus Cristo Ressuscitado tem razões para se alegrar interiormente, por conhecer já, na esperança, o futuro que o espera: todo o luto, sofrimento e morte passarão e chegará a glória que Deus preparou para os seus filhos (cf. Ap 21, 4).
A alegria cristã baseia-se na esperança que nasce do mistério pascal de Jesus Cristo, Aquele que passou pela morte, mas ressuscitou para a glória e nos abriu as portas da vida eterna.
Apesar destes pressupostos da teologia, nem sempre a vida cristã foi encarada como um caminho de esperança e de alegria. Frequentemente se acentuaram outras dimensões que deixaram esta realidade na sombra: a resignação enquanto aceitação passiva da cruz, as obrigações pesadas provenientes da imposição dos mandamentos e preceitos, o caráter inevitável de muitos acontecimentos causadores do sofrimento humano.
Sem negar a cruz de Cristo e as cruzes humanas, precisamos de descobrir e viver a alegria de crer, a paz interior que nos vem do encontro pessoal com Cristo, a sensação de plenitude que nos dá uma vida vivida na comunhão com Deus e no amor aos irmãos, a felicidade da vida comunitária nas suas mais variadas realizações e sempre sinal do amor de Deus.
Quem já alguma vez entrou em profundidade na oração cristã, tanto pessoal como comunitária, se abeirou do sacramento da reconciliação e sentiu a força da misericórdia e do perdão de Deus, participou na grandeza da celebração eucarística ou viveu em profundidade os outros sacramentos, percebeu o que é a alegria de crer.
Do mesmo modo, quem já se entregou a si mesmo na vivência do amor familiar, na abertura ao próximo, no cumprimento fiel dos seus deveres ou na solidariedade e fraternidade por amor a Cristo, percebeu o que é a alegria de crer.
O grande desafio que Deus nos faz consiste em entregarmos a nossa vida a Cristo, com alegrias e dores, e em nos alegrarmos com isso. Por sua vez, a Igreja é chamada a ser a comunidade dos que, apesar de tudo o que se passa no mundo, testemunham a alegria de conhecer Deus e de O amar na pessoa dos irmãos.
O Ano da Fé será ganho se nele conseguirmos a graça de crer no Senhor Jesus Cristo como nossa alegria e salvação.
 
 
2. O entusiasmo de comunicar a fé
 
Surpreende-nos a entrega de Jesus na realização da obra que Lhe foi confiada pelo Pai: a proclamação da Boa Nova do Reino. Do mesmo modo nos causa assombro o modo como os Apóstolos e Discípulos cumpriram o mandato que lhes foi dado: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). Para Jesus e para os Apóstolos, a seriedade e entrega levaram ao martírio, a um testemunho que incluiu o derramamento do sangue, a morte.
Ao longo da História da Igreja, muitos dos que nos precederam viveram o mandato do anúncio do Evangelho com grande ardor e entusiasmo, de tal modo que, somos herdeiros de um património espiritual de altíssimo valor, ao qual devemos ser fiéis a toda a prova.
Também neste caso podemos dizer que um dos melhores sintomas da fé, tanto pessoal como comunitária, é o entusiasmo que temos de a comunicar. De facto, uma fé viva, que transforma a existência humana, que enche o coração, não pode esconder-se nem fechar-se dentro do peito, mas impele ao anúncio, à comunicação. Mais do que um mandato ou uma obrigação, torna-se um desejo incontido, um imperativo do coração.
Como recorda Bento XVI, “é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar... A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor e aderir à sua Palavra, a fim de se tornarem seus discípulos” (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 7).
Dos sacerdotes, religiosos e leigos que se dedicam à ação evangelizadora nas comunidades espera-se esse entusiasmo na comunicação da fé tanto na liturgia, como na catequese ou nos grupos apostólicos, enquanto realidade que transforma as suas vidas; dos pais, que sentem o apelo à educação cristã dos seus filhos espera-se o entusiasmo na comunicação da fé como uma realidade que se vive e não como uma teoria que se ensina; dos catequistas, animadores de grupos de jovens, professores de Educação Moral e Religiosa Católicas, dos educadores em geral espera-se um compromisso interior com o Senhor, que os enviou a falar e a testemunhar algo de novo e diferente do que proclama o mundo.
Sem esta alegria e este entusiasmo, fica comprometido o mandato do Senhor e não se cumpre o seu desejo de evangelizar o mundo. Não bastam as palavras, é precisa uma verdadeira paixão, como nos disse o Papa, em Fátima: “O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável; todavia, a mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a sua vida. Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho dele” (Bento XVI em Portugal, discursos e homilias, Ed. Paulinas, 2010, p. 95).
O Ano da Fé será ganho, também, se nele conseguirmos a graça do entusiasmo em ordem à comunicação da fé, tanto na realização das ações já habituais na comunidade cristã, na escola ou na família, como nas ações que procuraremos criar em ordem a suprir algumas lacunas existentes no âmbito da pastoral da fé.
 

 
III. DESCOBRIR NOVAMENTE OS CONTEÚDOS DA FÉ PROFESSADA, CELEBRADA, VIVIDA E REZADA (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 9).
 
O Ano da Fé deve constituir uma ocasião privilegiada para a tão desejada revitalização da vida cristã nas comunidades diocesana e paroquiais.
Embora a Igreja Universal, através da Congregação para a Doutrina da Fé, e a Diocese, através do Programa do Ano Pastoral, forneçam alguns elementos para a vivência do Ano da Fé, é importante que cada Arciprestado, Paróquia, Secretariado, Serviço e Movimento, elabore o seu próprio Plano e Programa de ação, devidamente ajustados à sua realidade.
Em tudo procuraremos caminhar na comunhão eclesial, de modo que os programas particulares concretizem o programa geral e estabeleçam a convergência da Igreja Local, expressão e realização da única Igreja de Jesus Cristo.
 
 
1. A fé professada
 
O Ano da Fé constitui uma ocasião privilegiada para que a Igreja confesse a sua fé com renovado vigor e com uma consciência mais viva.
As comunidades cristãs e os crentes em geral conhecem pouco ou de forma muito superficial o conteúdo da fé cristã e da doutrina da Igreja. Falta frequentemente aos cristãos a capacidade de enunciar e explicar tanto para si mesmos como para os outros as verdades fundamentais do Credo, fruto de uma catequese mais voltada para a adesão pessoal e a experiência comunitária do que para a aquisição de conceitos; outras vezes, fruto de uma doutrinação baseada na memorização, falta a compreensão dos diferentes artigos da fé que se repetem de memória sem que se conheça o seu alcance e significado.
A reflexão e o estudo do Credo, em ordem a uma melhor inteligência da fé, deverá ocupar parte importante das ações a desenvolver durante este ano. Grande ajuda dará a leitura e o estudo do Catecismo da Igreja Católica, publicado há vinte anos, tanto a nível individual como familiar e comunitário.
A leitura e o estudo dos Documentos do Concílio Vaticano II, particularmente das quatro Constituições, será uma ajuda para a compreensão do que é a Igreja e de qual a sua missão no mundo. Cinquenta anos depois do seu início, o Concílio continua a revelar-se como um acontecimento ímpar, como um dom inestimável do Espírito Santo e como fonte da tão desejada renovação da Igreja.
Em ordem a um conhecimento mais profundo da fé cristã para uma adesão mais séria a Cristo e ao seu Evangelho, propõem-se alguns meios:
- Caminhada semanal inspirada na liturgia dominical, denominada Palavras. Ao longo de todo o ano litúrgico, por meio da leitura de um texto publicado pela Diocese, os cristãos poderão conhecer o conteúdo da fé cristã, encontrar um ponto de partida para a oração pessoal e familiar, professar a sua fé por meio da recitação do Credo e propor-se levar a efeito algum aspeto de mudança de vida e conversão.
- Reflexões catequéticas para o Ano da Fé, em quinze sessões. O texto elaborado pelo Secretariado da Coordenação Pastoral constitui um subsídio a ser utilizado tanto a nível paroquial, como a nível local ou por grupos de vizinhança liderados pelo pároco, por um Ministro Extraordinário da Comunhão, por um Animador das Celebrações Dominicais na Ausência de Presbítero, por um Catequista. Deseja-se que constitua uma proposta catequética assumida de forma generalizada pelo Povo de Deus.
- Propostas de anúncio querigmático ou primeiro anúncio. Apesar de terem recebido o batismo e terem frequentado a catequese de infância, são muitos os cristãos que precisam de um novo anúncio da fé, como se de um primeiro anúncio se tratasse. Não interiorizaram nem assumiram a fé como uma decisão marcante da sua existência, nem como uma relação pessoal com Cristo. Frequentemente ficaram-se por uma religiosidade popular, por uma tradição cultural ou por um cristianismo social, mas sem os fundamentos da fé.
Havemos de ser ousados nas propostas e nos convites para a participação nas catequeses de adultos, cursos, momentos intensos de evangelização, recorrendo porventura a estruturas existentes e já com provas dadas entre nós, como são os Cursos de Cristandade, os Convívios Fraternos, os Cursos Alfa, o Caminho Neo-Catecumenal ou outros que a Igreja nos oferece.
- Escola Diocesana de Leigos. Nos próximos três anos, o programa deste organismo diocesano tem como objeto o Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica.
De forma descentralizada e, portanto, de forma acessível ao Povo de Deus das diversas regiões da Diocese, a proposta deve ser aproveitada por grande número de pessoas, sobretudo por aquelas que foram chamadas a exercer alguma missão dentro da comunidade cristã.
 
 
2. A fé celebrada
 
O Ano da Fé “será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (Sacrosanctum Concilium, 10)” (Carta Apostólica A Porta da Fé, 9).
De facto, a celebração semanal da Eucaristia precisa de ser continuamente valorizada como a grande escola da fé da comunidade cristã. Ela deve constituir um marco fundamental da celebração do domingo e ser cuidada em todos os seus aspetos, com a colaboração estreita de todos os que nela desempenham algum serviço: leitores, cantores, acólitos, ministros extraordinários da comunhão.
A Ano da Fé deverá constituir uma oportunidade para se incentivar a formação de todos os que colaboram ativamente na celebração da liturgia dominical. Levará também os sacerdotes e diáconos a investir ainda mais na preparação pessoal e comunitária das celebrações, de modo que elas se tornem melhor expressão da fé.
A nível diocesano calendarizaram-se alguns momentos celebrativos, que marcarão etapas importantes de todo o Ano:
- Abertura Solene do Ano da Fé – 7 de outubro de 2012, com uma assembleia de responsáveis das comunidades, da parte da manhã, e a celebração da Missa, da parte da tarde, na Sé Nova.
- Dia da Igreja Diocesana – 26 de maio de 2013. A celebração terá lugar a nível arciprestal, com a realização de assembleias para avaliação do ano e de celebrações nas quais se fará a entrega do Credo e a profissão de fé.
- Peregrinação Diocesana a Fátima - 22 de junho de 2013. O encerramento do ano pastoral constituirá uma grande jornada de ação de graças a Deus no Santuário de Nossa Senhora de Fátima.
 
 
3. A fé vivida
 
A fé cristã é adesão a Jesus Cristo e à sua Boa Nova, que tem consequências na vida dos crentes. Ela seria estéril se não fosse transformadora da realidade do mundo e da sociedade a que somos enviados, ou então, como diz a Epístola de S. Tiago, “... a fé, se ela não tiver obras, está completamente morta” (Tg 2, 17); “mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé” (Tg 2, 18).
“Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades (...) confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados” (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 13).
O Ano da Fé levará os cristãos a uma mais efetiva presença nas diversas realidades humanas, a um maior empenho na transformação da sociedade e da cultura, à luz da novidade do Evangelho assimilado e vivido.
Como recorda o Papa, “o Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade”, pois “a fé sem a caridade não dá fruto, e a fé sem a caridade seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida” (BENTO XVI, Carta Apostólica A Porta da Fé, 14).
Neste sentido, entre muitas iniciativas particulares de ação caritativa, exortamos os cristãos da Diocese a fazerem da Renúncia Quaresmal e do Contributo Penitencial uma grande campanha de caridade em favor dos pobres.
 
 
4. A fé rezada
 
A oração faz parte integrante da vida do cristão, enquanto meio de fortalecimento da fé e da comunhão com Deus, de tal modo que Jesus ensinou os seus discípulos a rezar e incentivou-os a orar para não caírem em tentação (cf. Lc 22, 46).
A tradição da Igreja ensina que a oração exprime a fé e que, ao mesmo tempo, a alimenta.
O Ano da Fé constitui uma oportunidade para que implementemos hábitos de oração tanto a nível individual, como familiar e comunitário.
Nesse sentido se orientam as seguintes propostas:
- Encontros de espiritualidade, por arciprestado, no Advento e na Quaresma. Trata-se de uma jornada de oração em cada um dos tempos fortes que antecedem o Natal e a Páscoa, a organizar em cada um dos arciprestados de acordo com o programa que pareça mais oportuno e adaptado às circunstâncias locais.
- Adoração Eucarística. Segundo uma prática já habitual, deveremos reforçar os momentos de adoração eucarística, a um ritmo semanal – tradicionalmente a quinta feira. Com a colaboração dos Ministros Extraordinários da Comunhão, é possível uma rede de oração que envolva, a critério dos párocos, as igrejas e capelas onde se conserva o Santíssimo Sacramento, numa grande oração de louvor e de súplica de toda a Diocese, especialmente em favor das vocações sacerdotais.
- Oração familiar. A partir da proposta semanal inspirada na Liturgia da Palavra e da reflexão feita à volta da palavra-chave de cada domingo, sugere-se a reunião da família em oração, ao menos uma vez em cada semana. Felizmente existem muitas outros subsídios disponíveis para ajudar as famílias a fazer o seu momento diário de oração, que poderão ser aproveitados.
 
 
 
 
CONCLUSÃO
 
Desejo ardentemente que o Ano da Fé seja um ano de graça do Senhor, que nos convida a acolhê-l’O como amigo nesta caminhada da nossa vida. A proposta de Deus continua a ecoar aos nossos ouvidos; é preciso que lhe respondamos por meio da fé que Ele mesmo põe nos nossos corações.
Às comunidades cristãs, na pessoa dos seus responsáveis, sacerdotes, diáconos, religiosos, consagrados e leigos, peço que ponham todo o empenho na realização das propostas emanadas da Diocese e sejam ousadas na construção do seu próprio programa pastoral. Não deixemos passar em vão esta oportunidade que o Senhor nos quer conceder por meio da sua Igreja.
Convido-vos a todos a estar atentos à voz do Espírito Santo, que continua a conduzir a Igreja e a abrir-lhe caminhos no meio deste mundo cheio de apreensões e ao mesmo tempo cheio de confiança no futuro.
Os materiais e as propostas apresentadas constituem um instrumento que, na sua simplicidade, não esgota a totalidade das iniciativas que poderão ser realizadas ao longo deste ano. Hoje, como ao longo da história da Igreja, o importante é estarmos disponíveis e atentos às interpelações que o Espírito faz em nós.
Avancemos, por isso, com esperança, tomando nas nossas mãos a missão que o Senhor nos confiou e colaborando para que se realize a obra de Deus: crer n’Aquele que Ele enviou, para que o mundo seja salvo.
Nas mãos de Maria, a Mulher feliz porque acreditou (Lc 1, 45), entregamos a caminhada de fé da nossa Diocese e da Igreja.

 
 
Coimbra, 15 de Agosto de 2012, Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Informação: Secretaria Paroquial

Na terça-feira, dia 1 de Maio - feriado nacional - não haverá Secretaria Paroquial no Luso.
Na terça-feira, dia 8 de Maio, também não haverá Secretaria Paroquial. O pároco estará em Fátima, a participar na reunião da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana. Nestes dois dias também não haverá celebração da Eucaristia numa das Capelas de Luso.
Obrigado pela atenção.

domingo, 8 de abril de 2012

HOMILIA DE DOMINGO DE PÁSCOA

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
08.04.2012


Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade (1 Cor. 5, 7 – 8).

1. O mistério da morte e ressurreição do Senhor Jesus, acontecimento central da nossa fé de cristãos, e manifestação plena do amor de Deus aos homens, realiza plenamente todo o sacrifício da Antiga Aliança, simbolizado na imolação do cordeiro pascal e no alimento com o pão ázimo. A Antiga Aliança, na pedagogia bíblica, prepara a nova e definitiva Aliança – a imolação do verdadeiro Cordeiro Pascal, que é o próprio Cristo; e a vida nova dos batizados, cuja vida se assemelha, na linguagem paulina, à destruição do antigo fermento do pecado para ressurgir agora como alimento novo, numa vida santa e pura, dom de Deus aos seus filhos, pelos méritos da morte e ressurreição do Seu Filho Unigénito. Por isso cantamos, plenos de alegria, «Ressuscitou Cristo, minha esperança, o Cordeiro que resgatou as ovelhas» (cf. Sequência Pascal); ou afirmamos, ainda, com Santo Agostinho: «Com a sua Ressurreição, nosso Senhor Jesus Cristo converteu em glorioso o dia que a sua morte tornara triste. Por isso, trazendo solenemente à memória aqueles dois momentos, permaneçamos de vela recordando a sua morte e alegremo-nos acolhendo a Sua ressurreição. Esta é a nossa festa anual, a nossa Páscoa, não figurada pela morte de um cordeiro, como o foi entre o povo antigo, mas realizada, para o povo novo, pelo sacrifício do Salvador, pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, e o que era antigo passou; tudo foi renovado» (Santo Agostinho, Sermão 220).
De igual modo, o apóstolo nos convida, nesta mesma passagem, da Carta aos Coríntios, a conformarmo-nos com a nova condição de filhos de Deus, que recebemos pelo batismo, pois que nele fomos incorporados em Cristo, para que o nosso canto seja perfeito – já não apenas saído dos nossos lábios, mas igualmente do nosso coração e das nossas vidas, como resposta sincera e jubilosa ao convite formulado pelo apóstolo: «celebremos a festa, não com o fermento velho, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade» (1 Cor. 5, 8).
A alegria pascal resulta simultaneamente deste encontro íntimo de corações: o de Deus, que no Seu Filho, morto e ressuscitado, nos envolve na plenitude da Sua misericórdia; e o do homem, que aberto ao dom inefável do amor divino, por ele modela a sua vida numa existência radicalmente nova, ainda que a iniciativa da salvação seja sempre de Deus, que «demonstra o Seu amor para connosco pelo facto de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores» (Rom. 5, 8). É ainda São João Crisóstomo quem nos convida a viver esta existência nova de batizados, ao ensinar-nos: «É justo que aqueles que têm Cristo, não representado nas vestes, mas para sempre na alma e, com Cristo, o Pai e a presença do Espirito Santo dêem provas de firme segurança e mostrem a todos, pela exatidão do comportamento e pela vigilância de vida, que trazem a sua imagem real» (S. João Crisóstomo, Catequeses Batismais, IV).

2. A Páscoa, cujo significado é precisamente o da passagem da morte à vida, significa o inolvidável acontecimento da vida que ressurge em Cristo crucificado e morto, a quem Deus ressuscitou ao terceiro dia (cf. Act. 10, 40), mas também a nossa ressurreição com Ele, pois que «pelo batismo nós fomos sepultados com Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova» (Rom. 6, 4). E este acontecimento salvífico não se restringe já a um só povo, raça ou nação; é, ao invés, um dom oferecido a todos os homens que acolhem Cristo na fé e n’Ele são batizados. Assim aconteceu com o centurião Cornélio, a quem Pedro se dirige na primeira leitura de hoje, e assim acontece com todos os homens que se abrem ao dom de Deus, ao longo de toda a história humana.
Na morte e ressurreição de Cristo, as profecias atingiram o seu termo e total realização, em sentido plenamente universal, como refere Pedro: «É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados» (Act. 10, 43); para logo, na perspetiva universalista, ser secundado por Paulo: «pois todos os que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo. E, se sois de Cristo sois então descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa» (Gál. 3, 27 – 29). O passado é suplantado pelo presente contínuo do dom de Deus a cada homem, e a todos os homens, até à consumação do tempo e da história, unindo-nos numa única e mesma comunhão fraterna – a Igreja – como o único corpo, de que Cristo é a Cabeça (cf. 1 Cor. 12, 12 – 13). A vida oferece-se a cada um plenamente, enquanto dom amoroso do ressuscitado, que, na força do Seu Espírito, quer que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo. 10, 10).

3. A Páscoa transforma-se, então, em convite sempre renovado para todos nós – cristãos e humanidade inteira. Aos primeiros, os que já aceitámos Cristo pelo batismo e queremos seriamente configurar-nos com Ele, exige-se-nos o dom do acolhimento da sua graça, veiculada pelo dom do Seu Espírito; pela graça sacramental, de onde sobressai o dom da Eucaristia, pois nela o Senhor nos dá o Seu corpo a comer; e pela intimidade divina, que nos permite deixar que o Ressuscitado, na força do Seu Espírito, no molde à sua imagem. Por outro lado, exige-se-nos igualmente que o imitemos com toda a nossa vida, obedientes àquele mandamento que Ele nos deixou como testamento pessoal, no contexto da última Ceia: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros» (Jo. 13, 34). Acrescentando ainda: «Nisto reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros» (Jo. 13, 35). Sabendo que – para retomar as palavras de Paulo, na segunda leitura de hoje - a prática do amor é que nos fará alimentarmo-nos dos «pães ázimos da pureza e da verdade» (1 Cor. 5, 8), pois que a caridade, na expressão do apóstolo, é o vínculo da perfeição» (Col. 3, 14).
O Pastor de Hermas – um escrito antigo – dirige-se-nos também a nós, nesta hora pascal, como aos primeiros cristãos: «Perseverai, pois, vós que praticais a justiça, expulsai toda a hesitação para caminhardes com os santos Anjos. Felizes, vós que esperais a pé firme a prova que vai chegar, a grande tribulação, e felizes todos os que não renegarem a sua vida» (Pastor de Hermas, Visão 2, nº 7).
Mas a Páscoa é um dom singular para toda a humanidade. O único capaz de responder à sede de vida que habita o coração de cada homem e de todos os homens.
Vivemos hoje um tempo culturalmente marcado pela inquietação e pela incerteza. Um tempo em que a humanidade, apesar das alterações políticas, económicas, sociais, e mesmo ambientais, que assumiram uma nova ordem, se continua a consumir na transitoriedade e no imediatismo, que esvazia e dispersa, impedindo um encontro profundo do homem consigo próprio e com o pleno sentido da sua vida. Um tempo de felicidades aparentes, às quais faltam dimensão de plenitude. Mas é a este homem – o homem de hoje, tal como o de ontem – a quem o Senhor se dirige, no presente da sua história, convidando-o a uma relação de amor, coração a coração, na força da vida doada pelo Ressuscitado. Sim, porque o amor de Deus não cessa; pois, como o Senhor Jesus nos diz no Evangelho de João, «Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo. 3, 16). O convite é à abertura ao amor que plenifica, que nos faz regressar a todos à casa do Pai, onde nos reencontramos com o projeto inicial de felicidade que Deus traçou para nós e que agora nos é dado plenamente no mistério pascal de Cristo, o Seu Filho e Senhor nosso.
Mas para que o homem de hoje se reencontre com Cristo e com a vida que Ele nos oferece, urge que a Igreja e, nela, cada cristão, assuma a missão que o Senhor lhe confiou e que Pedro claramente expressa, na primeira leitura de hoje: «Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém» (Act. 10, 39), para logo, de imediato, nos remeter para a missão que ele mesmo havia recebido e que se há-de perpetuar pelo tempo: «Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído juiz dos vivos e dos mortos» (Act. 10, 42); a nós «que comemos e bebemos com Ele» (Act. 10, 41).

A concluir, peçamos ao Senhor Ressuscitado que, nesta Páscoa, renove em nós a Sua vida e nos acolha, fazendo-o com as palavras de um antigo hino do século II:

«Filho de Deus, tende piedade de nós
E procedei connosco segundo a vossa misericórdia.
Tirai-nos das cadeias das trevas:
Abri-nos a porta, a fim de irmos para Vós.
Sejamos também nós redimidos convosco,
Porque Vós sois o nosso Redentor.
Ouvi a sua voz,
E selei o meu nome sobre as suas cabeças;
Porque eles são homens livres e pertencem-Me.
Aleluia».
(Odes de Salomão, Ode XLII).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Horários das Missas

Porque uma boa parte das mensagens recebidas no email das Paróquias se destina a procurar informação sobre os horários das Missas nas Paróquias, particularmente no Luso, pela sua natureza de estância turística, na barra lateral ficam disponíveis os horários das duas Paróquias, bem como o horário de atendimento nas secretarias Paroquiais.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Homilia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Paróquias de Luso e Pampilhosa)

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
1 DE JANEIRO DE 2012

Introdução
Este primeiro dia do ano, celebração da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, que encerra a oitava de Natal, é marcado por múltiplos elementos que enriquecem a nossa reflexão e celebração. Sendo o dia dedicado a Maria, permite-nos reconhecer a grandeza da sua maternidade – Daquela que tudo meditava em seu coração (cf. Lc. 2, 19) -, colocando-nos, igualmente, ao iniciar-se um novo ciclo anual, sob a sua protecção maternal; enquanto, por outro lado, ainda, nos apresenta o seu modelo de fidelidade à missão que Deus lhe confia, ao constitui-La Mãe do Seu Filho feito carne no meio de nós. Maria, que nos dá Cristo, pela Sua intercessão, favorece o nosso contacto com o mesmo Cristo (cf. LG. 60), a quem agora nos conduz, na ordem da graça.
Mas este dia - primeiro do ano - é também dedicado à paz, segundo a vontade do Papa Paulo VI, que, em 1968, instituiu o Dia Mundial da Paz, «como augúrio de um novo ano e de uma nova era de paz». Na celebração do seu quadragésimo quinto dia, o Papa Bento XVI propõe-nos, como mensagem, o tema: Educar os Jovens para a Justiça e a Paz; reflexão que merece a nossa atenção cuidada e disponível, para que, celebrando Cristo «Príncipe da Paz», renovemos os nossos laços de autêntica comunhão fraterna, olhando especialmente, neste ano, para a formação das novas gerações.
Precisamente por estarmos situados no primeiro dia do ano, a Igreja, na senda dos sacerdotes da Antiga Aliança, convida-nos ainda a invocar a bênção de Deus sobre o Seu povo, agora constituído como novo Israel que vive «aquela aliança nova e perfeita que haveria de selar-se em Cristo, e da revelação mais plena que o próprio Verbo de Deus, feito carne, viria comunicar» (LG. 9).
O sentido profundo da bênção e a mensagem para o Dia Mundial da Paz – da paz que não é apenas «ausência de guerra», mas que pressupõe uma verdadeira disposição interior para viver a dignidade da pessoa humana, a livre comunicação entre pessoas e a salvaguarda dos seus bens (cf. CIC. 2304; MDMP. 5) – merecerão a nossa breve atenção nas linhas que a seguir se propõem.
1. Abênção na Sagrada Escritura
De entre as múltiplas expressões de bênção, que encontramos na Sagrada Escritura, sobressai para nós, hoje, a do Livro dos Números (1ª Leitura) recitada pelos sacerdotes sobre todo o Povo de Israel: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilharsobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz» (Num. 6, 24 – 26). Esta bênção, cujo texto se constituiu como fórmula oficial para abençoar o povo, em qualquer ocasião em que a assembleia do Israel antigo se reunia, era proclamada pelos sacerdotes, ainda que, na sua forma originária, fosse proclamada pelo rei, a quem competia exercer funções sacerdotais e que abençoava em nome de Deus. Na verdade, é sempre Deus quem abençoa o Seu povo, particularmente quando este se reúne para um encontro consigo. Sendo uma assembleia litúrgica, Deus é colocado nominalmente no meio do Seu povo, a quem dispensa as Suas graças. É o próprio nome de Deus, proclamado sobre o povo, que se torna a fonte de todas as bênçãos e não qualquer outra consideração de carácter ritual ou mágico, pois Deus é que é a fonte de todos os bens. Estar na presença de Deus é fonte de bênção, enquanto a Sua ausência é fonte de privação desse dom.
Ora, para nós cristãos – que temos a graça de nos unir a Cristo intimamente, pois pelo Baptismo estamos configurados com Ele, formando o seu corpo místico (LG. 7) - esta bênção adquire um sentido ainda mais profundo: a verdadeira bênção é a participação da própria vida de Deus, que Ele, na Sua bondade, nos comunica no Seu Filho feito carne no meio de nós. Ou seja, a nossa verdadeira bênção é Cristo, garantia da plenitude da vida, pois n’Ele o Pai nos predestinou «para
sermos Seus filhos adoptivos, conforme o beneplácito da Sua vontade» (cf. Ef. 1, 5). Na sequência do Livro dos Números, a nossa protecção torna-se o próprio Cristo, cuja face nos é favorável e que se constitui para nós a fonte de toda a paz. Por isso o papa interpela a todos, e especialmente aos jovens, a compreender que «não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno» (MDMP. 6). Esta verdade e esta vida contemplamo-la todos nós em Cristo, «o caminho, a verdade e a vida» (Jo. 14, 6), Aquele – o único – por Quem chegaremos ao Pai (cf. Jo. 14, 6).

2. O tempo presente
No tempo presente, muitas são as propostas de realização e felicidade que nos chegam de diversos quadrantes. Mas muito poucas comportam consistência e essencialmente nos conduzem à plenitude da vida que buscamos. Os jovens, como todos nós, imersos nesta sociedade que cultiva o relativismo, «nada reconhecendo como definitivo», mas deixando somente como «última medida o próprio eu com os seus desejos», o que nos fecha em nós próprios, separando-nos «uns dos outros» (cf. MDMP. 3), são também as maiores vítimas desta sociedade que lhes nega – como bem refere o papa – «o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia, contribuindo para a construção de uma sociedade de rosto mais humano e solidário» (MDMP. 1); o que, não raro, é fonte de desânimo ou mesmo de contestação – seja ela activa ou silenciosa.
Na verdade, vivemos um conjunto de «falências» na cultura moderna, que provêem já de um passado longínquo, cujas raízes se encontram no iluminismo do séc. XVIII. O ideal do homem sem Deus – que se afirmou em muitas ideologias do século XX; o ideal do sucesso económico e material sem fim, fruto de uma sociedade tecnocrata e consumista; e mesmo o ideal da contínua perfectibilidade do homem, cujas raízes provêem desses tempos mais longínquos da história; manifestam-se hoje como ideais falidos, sem capacidade de responder aos desafios concretos com que cada um se confronta, no concreto das suas vidas. Necessitamos, por isso, de regressar à verdade mais essencial sobre a nossa identidade humana: aquela consciência da «dignidade da pessoa», que leva cada um – na expressão do Vaticano II – a exigir «poder agir de acordo com os seus critérios no exercício de uma liberdade responsável, guiados apenas pela consciência do dever e não por qualquer coacção» (DH. 1), que se opõe a uma concepção de liberdade marcada pelo relativismo do eu absoluto, julgando-se independente de todos, podendo «fazer tudo o que lhe apetece», acabando «por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade» (MDMP. 3). É que, de facto, sob a aparência de uma liberdade sem fim, o relativismo hodierno transformou-se na maior coação mental, social e cultural, que nos chega de formas diversas, e que esvazia o sentido profundo da vida humana.
Ora, os jovens de hoje – adultos de amanhã – necessitam de ser formados na verdade e na justiça, como refere o papa, de onde sobressai, como «primeira educação», «reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem a sua vida conforme a esta sublime dignidade» (MDMP. 3). Este é o desafio lançado a todos os que têm a tarefa de educar os mais jovens, significando educare «conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa», tarefa esta confiada à família, às instituições educativas, aos responsáveis políticos, ou ainda aos meios de comunicação social, cuja acção é tão importante, pois que é estreita a relação entre «comunicação e educação» (cf. MDMP. 2).

3. A bênção que nos é oferecida
A maior bênção que nos é oferecida é a condição de filhos de Deus e irmãos uns dos outros, o que nos permite tomar consciência de nós mesmos, mas nunca de forma isolada. É o próprio Jesus, feito carne, quem nos revela, na Sua humanidade, o valor da vida humana e nos ensina a reconhecer o outro como nosso verdadeiro irmão, pois que Ele foi o primeiro a fazer-se próximo de cada um de nós. Assim, descobrir em Deus, feito carne, a liberdade autêntica (cf. MDMP. 3) é primeira condição para alcançar a verdadeira bênção - enquanto benefício ou graça mais sublime - de que não pode separar-se o serviço aos outros, pois que justiça e caridade, na concepção cristã, resultam desta «mesma identidade profunda do ser humano» (MDMP. 4). Como nos recorda ainda o papa «a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor» (MDMP. 4). A nossa felicidade, ao longo de um novo ano, resulta essencialmente desta consciência profunda de nós – que já não somos escravos, mas filhos, como refere a segunda leitura de hoje (cf. Gál. 4, 7) - e do serviço que prestamos aos demais. Isto é, depende do modo como acolhemos os dons de Deus e os transformamos em verdadeiros dons humanos, colocando-os ao nosso serviço, em verdadeira atitude de acção de graças, mas igualmente ao serviço uns dos outros.

Conclusão

No início de um novo ano, que o Senhor nos conceda a graça de reconhecermos a bênção que nos foi dada, pois que o Pai «nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus» (Ef. 1, 3), predestinando-nos «para sermos seus filhos adoptivos por Jesus Cristo» (Ef. 1, 5) - o fundamento da nossa suprema glória; e nos faça reconhecer na caridade o «vínculo da perfeição» (Col. 3, 14), sabendo que, por ela, «passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos» (1Jo. 3, 14).
Que a Virgem Mãe, para quem olhamos e a quem nos confiamos neste primeiro dia do ano, vele por todos nós e nos conceda, pela graça da Sua intercessão, que o olhar de Deus repouse sobre nós, no seja favorável e nos conceda a paz. A ela, Mãe de todos os cristãos, recomendamos especialmente os nossos jovens, para que estes encontrem em Deus a fonte da vida; e numa verdadeira cultura da justiça e da paz, sejam os construtores de um mundo com um «rosto mais fraterno e humano», verdadeiramente digno da nossa condição de homens e de filhos de Deus.